Silvane escreveu o que viu a pedido do FOLHA DO SUL ON LINE
Eu me chamo Silvane Vargas, trabalho há 07 anos no hospital São Lucas, em Cerejeiras, na área de contaminação , de descartes de insumos contagiantes e na área limpeza terminal.
No dia 04/03, eu senti dor de garganta, e minha temperatura estava em 34 graus. Muito calafrios. Então, como estava no hospital, resolvi ir na área Covid para me consultar. Chegando lá, fui atendida , mas como só tinha 2 dias de sintomas, o médico disse que era apenas uma infecção de garganta. Fez escuta pulmonar e tava boa, mas já iniciou o tratamento com azitromicina, e mandou que eu continuasse a trabalhar.
No dia 06/03, tive coriza e muita febre, então voltei no hospital para me consultar novamente. Então a Dra. Naiely me atendeu e, por conta dos dias, me pediu q voltasse dois dias depois para fazer o teste exato, para não correr risco de dar falso negativo.
Fiquei de 5 até umas 8 da noite no soro por conta da febre, então fui para casa! Mas acordei na madrugada com muita febre, e no dia seguinte, de nov. A febre não passava e, como o teste era só no dia 11 /03, eu estava muito preocupada, então liguei para um amigo que trabalha como técnico de enfermagem e ele conversou com a gerente de enfermagem sobre mim. Ela disse que era para eu ir lá pra fazer o teste, então fui e infelizmente positivo.
O resultado saiu dia 10/03, mas eu já vinha com sintomas desde o dia 04 ... e só pude fazer o teste dia 10/03. Então, dia 12 a febre voltou , aí o dr Alexandre pediu raio x , me chamou e falou: “vou internar para cuidarmos de você , porque seus pulmões estão com 50% de comprometimento.
O médico estava com os olhos cheio de lágrimas, então eu vim para casa arrumar minhas coisas para volta. Quando estava saindo , eu chorei porque pensei que talvez eu não voltasse viva. Fui orar e ler a Bíblia antes de ir. E a palavra q li foi em Provérbio. Lá, na Palavra, estava dizendo que Deus acrescentaria dias na minha vida!!!
Fiquei muito feliz com a Palavra e fui para a internação. Fiquei sábado, domingo e, na segunda, a médica plantonista veio e disse que tinha uma nova Cepa, ou seja uma variante perigosa, e que ia me mandar para casa, para não correr risco de um novo contágio, pois poderia ser fatal
Mas eu não estava bem! Vim para casa, mas na quarta eu já não respirava bem, e uma amiga técnica, Valdirene, me monitorava o tempo todo. Aí minha saturação começou a cair, chegou 86 e fui para hospital novamente.
Fui internada e direto para o catéter oxigênio. Fiz tomografia, meus pulmões estavam com pneumonia aguda. Então médica entrou com medicação mais forte, e eu fui ficando mais fraca, mas toda vez que os técnicos entravam, eu dizia estar bem, quando na verdade não estava; sentia dores nas costas o tempo todo.
Na quarta à noite acordei com gritos, era uma mulher chorando a morte do pai, que estava na enfermaria ao lado. Na quinta noite, acordei com uma mulher gritando e chorando a morte da mãe, que havia sido entubada e não resistiu.
Então começou a me dar um desespero , porque eu havia estado na mesma enfermaria que esta senhora que havia falecido, e ela conversava e até se alimentava, e no outro dia morreu. Essa doença é terrível, esse vírus mata muito rápido.
Então, no sexto dia, intubaram mais um de tarde, mas infelizmente ele não sobreviveu. Eu chorava porque a gente acabava sabendo o que os pacientes não estavam vencendo. E aí eu pensava: “Deus, será que vai acontecer isso comigo também?”.
Então, no sétimo dia morreram mais dois e intubaram outros dois. Havia ficado eu e duas senhoras na enfermaria. Os outros que foram internados e todos se foram. Triste que um dia morria a esposa e no outro, o marido. Foram casais que perderam a luta para esse maldito vírus.
Então no último domingo de março , eu melhorei, foi tirado oxigênio, e tive alta. Do dia 04/03 ao dia 29/03, eu lutei por minha vida, e hoje agradeço a equipe hospital São Lucas, que cuidou de mim 8 dias; sou grata a vida de cada um, em especial a Valdirene, técnica de enfermagem, que sofre com os pacientes; Antônio Enfermeiro, que sempre vinha e mandava eu ficar em posição de pronação, e de hora em hora estava ali do lado tentando ajudar; Cleonice, Sebastian, Patricia e Luciana, sou grata por tudo! Dr Weverton Machado, como seria bom se existissem vários médicos como ele, excelente profissional , luta pela vida dos pacientes .
Hoje estou em casa há uma semana, sinto muito cansaço, muita dores nas pernas , às vezes do nada começo a tremer e a uns dois dias comecei a sentir dores abdominais , passei pelo médico e ele falou que isso são sequelas da Covid
Perguntei até quando vou sentir isso, e ele disse : “infelizmente não sei, não sabemos muito sobre esse vírus!”
Eu louvo a Deus por estar viva , e por cada pessoa que orou por mim e por todos do hospital São Lucas , que mesmo não tendo muito recurso fizeram e fazem de tudo para salvar vidas; tem técnicos e médicos que estão fazendo 2 ate 3 plantões ali para ajudar os pacientes; as pessoas devem reconhecer e ser gratos a equipe do hospital São Lucas , que trabalha sem ganhar nenhum “Auxílio Covid”; trabalha por amor e muitos ainda são maltratados pela sociedade”.
Autor:
Da redação
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 11 de Abril de 2021, às 09:52