Figura marcante e influente, a pioneira Sueli de Almeida Bond, poderá ter o nome eternizado na cidade através de compromisso firmado por um antigo conhecido, o hoje vereador Célio Batista (PP). A profissional foi a principal figura da mídia na década de 80 não apenas em Vilhena, mas no Estado inteiro com o lançamento do primeiro programa televisivo produzido em Rondônia voltado ao colunismo social e entretenimento. Paralelo a isso, fluiu no meio político e cravou na cidade um marco importante: a escola estadual Ronaldo Aragão, no bairro São José, exatamente onde funcionaram por anos a fio alguns cabarés. Mas os vilhenenses conhecem apenas uma etapa da vida da aventureira e arrojada Sueli Bond, aquela que aqui virou mito um mito chamado “A Dengosa”.
Nascida em família tradicional de classe média no centro da capital do Paraná, a curitibana Sueli veio ao mundo em 04 de janeiro do 1944. Caçula entre os cinco filhos do casal Nelson e Rosalina Bond, passou por momentos raros com a família, como férias anuais em Guaratuba litoral, e frequentou estabelecimentos de elite da fria Curitiba. Crescendo no centro da cidade (Edifício Asa), na frente da praça General Ozório, conheceu através do irmão mais velho o mundo da imprensa e da política. Rosnel Bond, o primogênito do casal, foi jornalista de renome no centro-sul, em particular na capital paranaense.
O apego maior entre os familiares foi com a irmã que tinha idade mais próxima: Roseli (FOTO SECUNDÁRIA), pouco mais de um ano de diferença entre as duas, que ficaram juntas até quando a Dengosa morreu, em 2005. O destino de ambas estava traçado até o fim. Quando a companheira casou, em 1960, a jovem Sueli, com dezesseis anos e muita disposição para ganhar o mundo, deu o primeiro salto. Juntou-se a um grupo de hippies e contestadores do movimento de exceção que surgia no país. Num caso não muito bem explicado, quando se chegou a pensar que tivesse sido sequestrada, na verdade ficou em Guaratuba, menos de cem quilômetros de casa, porque quis.
Quando voltou não foi por muito tempo. Na virada da metade da década de 60, aos 22 anos, partiu para a Argentina com um grupo de integrantes do Movimento dos Tupamaros, uruguaios contrários à militarização dos governos na América do Sul. Não deu muito certo, e ela acabou presa pela polícia política argentina, passando muito tempo na cadeia. Não se comenta entre a família, mas é certo que sofreu violência. Quando voltou ao Brasil, ressurgiu com estilo, em plena São Paulo e trabalhando como maquiadora em redes de televisão como Tupi, Excelsior, Record e até na estreia da Globo. Ninguém sabe ao certo se foi dom natural ou se em algum momento ela parou a fim de aprender, mas o fato é que não havia ninguém melhor que ela no ramo.
Isto a aproximou muito de artistas, boêmios, poetas, jornalistas e – claro, militantes de esquerda contra a ditadura que começa a mostrar as garras. O “Vinícius” separando o primeiro nome do sobrenome de seu único filho não é a toa: o “Poetinha” foi um grande amigo e companheiro de copo da “artista”. A repressão e consequências a levando de volta a Cascavel (PR), de onde havia partido para o exterior. De novo, perto de Roseli.
Por volta de 74, o “comichão” veio de novo, e ela partiu para o Rio de Janeiro, rumo a buscar retorno ao meio artístico. Tudo ia bem, até que André Vinicius Bond, o filho, entrou meio de surpresa e totalmente de forma repentina em sua vida. O primeiro passo foi retornar a Curitiba, onde o filho nasceu em setembro de 75. E, em março de 1976, em nome do herdeiro desembarcou em Vilhena para se tornar a Dengosa. Como sempre, se relacionava bem com todos, porém melhor com os diferentes. Seu salão de beleza, chamado justamente de “A Dengosa”, tinha clientela garantida com as meninas do “Seu Valdivino” e da “Tia Holanda”, bordéis lendários da cidade. A proximidade com este público levou a outro passo: começou a viajar frequentemente a São Paulo comprando roupas para as meninas. E, é claro, ninguém fazia maquiagem como ela por aqui.
Arrojada e totalmente de vanguarda, a Dengosa habitava qualquer mundo. Em Vilhena, onde viveu a maior parte da vida, outro talento que a destacou enquanto teve saúde era a de massagista. Anos a fio, era ela o Setor de Traumatologia de Vilhena. Chegou até a manter clínica por muitos anos. O convívio com a sociedade colocou próximo dos políticos e dos mais ricos, abrindo duas possibilidades – podia escolher entre assessora ou atuar na imprensa, que já a sondava via Rádio Vilhena. Ousada, encarou as duas. Estreou com o programa e pouco tempo, com apoio e estímulo do amigo João Andrade de Castilho, criou no Portal da Amazônia a primeira coluna social rondoniense na televisão. E logo na Rede Globo, com a atração chegando a ser transmitida para a rede estadual das afilhadas. Foi a glória.
Na outra aposta que fez, acertou também. Seu carisma fez com que fosse assessora do deputado federal Arnaldo Lopes Martins, além das deputadas estaduais Ivone Abrão e Sueli Aragão. Com a última e já numa fase mais tranquila, teve participação decisiva na criação do colégio Ronaldo Aragão, onde trabalhou na fase inicial do estabelecimento escolar, que foi viabilizado graças a emenda da deputada de Cacoal. Por isso a escola eternizou o nome do falecido esposo da parlamentar.
Ironicamente, a escola está exatamente onde funcionaram os cabarés da cidade, depois de arrancados do centro – por isso, a proximidade de Dengosa com as meretrizes no passado. O salão da curitibana aventureira foi instalado na esquina da delegacia da época (onde hoje está o prédio do Banco do Brasil), e ficava a menos de duzentos metros da “zona”, cujo endereço era na avenida Marechal Rondon (em frente a BR), no quarteirão onde hoje funciona a Capela Mortuária da cidade. A coincidência com o “mundo da vida” na chegada; e marcando o início de sua saga local e o começo do entardecer de sua existência, conseguindo colocar uma escola onde antes era “Casa da Luz Vermelha” soa como uma espécie de prestação de contas.
Convertida ao Evangelho, o crepúsculo da estrela foi gradativo. Depois de tanta movimentação, a jovem senhora Dengosa deu sua última demonstração de talento e senso de oportunidade: beirando os 50 anos, criou o bombom mais famoso da cidade – tradição mantida até hoje pelo filho André. Isso a manteve em discreta evidência junto à sociedade até a tarde de 19 de setembro de 2002 (tragicamente, um dia após o aniversário do filho), quando foi alvo de acidente cardiovascular – mal que matou seu pai e o irmão Mário, além de ter colocado a mãe Rosalina com todo o lado direito do corpo afetado, na última década em que viveu. No caso de Dengosa, atingida de forma agressiva pela hemorragia cerebral, jamais recuperou a capacidade de andar, comer, tomar banho e falar. Foi assistida, até o fim pela irmã Roseli, e na tarde de em 13 de junho de 2005, partiu...
DENGOSA E CÉLIO BATISTA – O vereador ficou encantado quando foi sugerida a ele a ideia de dar a uma via ou logradouro da cidade o nome da pioneira. “Quando aqui cheguei, em 81, meu primeiro emprego foi no Restaurante La Gondôla. A Dengosa era personalidade com mesa cativa na casa, onde frequentava com seus amigos da elite. Porém, o fato de eu ser quase um menino, ser pobre e um simples garçom não impediu que não nos tornássemos amigos por muitos anos. Ela era tão carismática e franca que conseguia afetar a todos”.
Finalizando, Batista ressaltou: ela começava a noite com a elite e terminava a “balada” com os amigos boêmios e garçons. Mas, junto com o lado festeiro, ajudava muita gente. Seu contato com a elite resultava em campanhas de arrecadação de donativos e outros auxílios. “O meu patrão era um dos apoios com os quais ela sempre podia contar”, relembra o vereador.