Marcus Fernando Fiori atua no campus da universidade federal em Vilhena
O professor Marcus Fernando Fiori, que atua no campus da Unir, em Vilhena, sempre foi um crítico ácido dos governos petistas de Lula e Dilma, mantém o mesmo posicionamento em relação à gestão Jair Bolsonaro, contra quem frequentemente dispara nas redes sociais.
Em artigo enviado ao FOLHA DO SUL ON LINE, o educador, que aguarda transferência para Porto Velho, sobe o tom contra o presidente, a quem acusa de não ter “a sofisticação intelectual necessária para desenvolver uma ideologia”
CONFIRA ABAIXO, NA ÍNTEGRA:
BOLSONARO SE VAI. O PERIGO É O BOLSONARISMO QUE FICA
*Marcus Fernando Fiori
Uma guerra não termina com o fim dos embates militares. Se pensarmos em termos de II Guerra Mundial, o dia 08 de maio de 1945 marcou o fim do conflito armado, com a rendição incondicional das forças militares alemãs. Isso não significou o fim do nazismo enquanto ideologia.
Hitler e seu séquito deixaram uma herança maldita: pelo menos oito milhões de alemães eram (e permaneceram) nazistas convictos no pós-Hitler. Cerca de 10% da população daquele país adorava o "führer" e suas teorias. A segunda guerra foi (também) um conflito ideológico, e não uma mera luta armada.
Trazendo a questão para a realidade brasileira, penso que ainda é cedo para se falar em "bolsonarismo" enquanto ideologia. Mas distante ainda me parece a ideia de Jair Bolsonaro ser um ideólogo. Bolsonaro é completamente incapaz de enxergar um palmo adiante do nariz. O seu conceito de mundo começa e termina em seu próprio círculo familiar.
Na Alemanha, o "führer" estava morto, mas seus ideais permaneceram incrustrados nas mentes e corações de parte dos alemães - a que se deixou levar por um profundo processo de lavagem cerebral desencadeado, principalmente, pela propaganda nazista.
Jair Bolsonaro não é um pensador, não tem a sofisticação intelectual necessária para desenvolver uma ideologia. Não existe um "Mein Kampf" (Minha luta) escrito por Jair Bolsonaro (se é que ele sabe escrever).
A luta armada na Europa foi uma parte - talvez a intermediária - entre o início e o fim do regime nazista. A desnazicização mental dos alemães ainda duraria anos. Talvez ainda hoje haja resquícios da ideologia de Hitler espalhados pelo mundo. É o chamado "neo-nazismo". Tem também o "neo-fascismo". Fascismo foi o regime que brotou e floresceu na Itália de Benito Mussolini e serviu de inspiração para o nazismo de Hitler.
Parece que tudo partiu de Hitler. Não é verdade. Hitler foi produto e não produtor de um "zeit geist" (espírito de época). A bem da verdade, as bases do nazismo surgem ainda no séc. XIX. Elas foram idealizadas por Charles Davenport sob o epíteto de "eugenia". Por ironia do destino, o nazismo alemão teve sua semente plantada em solo norte-americano.
Bolsonaro não inventou o bolsonarismo. Como Hitler na Alemanha da década de 1920, Jair Bolsonaro foi produto, e não produtor, de um "zeit geist" (espírito de época) à brasileira quase um século após a experiência nazista. Ele apenas deu voz a uma parcela da população que se viu calada durante décadas por um modo nefasto de se lidar com a coisa pública e com as políticas públicas brasileiras. Bolsonaro não é o criador, ele é o redentor de uma perversidade latente que ambicionava se tornar aparente. E conseguiu.
Se Hitler nunca tivesse existido, outro faria o mesmo (ou pior). Hitler apenas deu vazão a um sentimento que estava represado no espírito alemão da época e o nacionalismo foi apenas o seu disfarce.
Se Jair Bolsonaro não existisse, outro "salvador da pátria" surgiria. Talvez fizesse um trabalho melhor que o dele. Talvez igual (pior me parece impossível). A diferença fundamental está no fato de que o Brasil do século XXI não é a Alemanha destruída no pós-guerra dos anos de 1920. Nem o brasileiro de hoje é o alemão daqueles tempos.
Os lunáticos fundamentalistas (5% do eleitorado) não aprenderão com a experiência e continuarão votando nele, juntos com mais uns 25% que se venderão pelo novo bolsa-família, programa que deverá atender pelo nome de "Renda Brasil". Mas os que (como eu) votaram nele pensando no mal menor, já viram o que ele é, do que é capaz e a que veio. Isso representa cerca de 40% do eleitorado que não mais depositará seu voto em Jair Bolsonaro (no meu caso, nem sob tortura).
O bolsonarismo surgiu e vai implodir em apenas quatro anos. Em 2023 essa será uma mera página podre de nossa história. Uma página virada. Não haverá tempo, portanto, para o bolsonarismo se firmar enquanto ideologia.
*Professor do Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Rondônia (Unir) - Campus de Vilhena
Autor:
Da redação
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 27 de Agosto de 2020, às 12:13