Exonerado ontem do cargo de secretário de Estado da Educação, o jornalista Júlio Olivar tornou pública uma carta endereçada à sua substituta no cargo, Isabel da Luz.
A correspondência, em tom emotivo, foi enviada para o FOLHA DO SUL ON LINE, que publica na íntegra o texto do ex-secretário:
Cara Secretária Isabel,
Encerro o ciclo na Seduc com uma sensação boa e feliz de dever cumprido. Entrei e saí limpo, mesmo com alguns processos a me atormentarem... Mas quero concentrar-me num "muito obrigado" a você, mulher dinâmica e competente. Você encampou a Seduc, colocou-a no coração, e sei que dará conta de fazer um grande trabalho, com energia e foco no social.
Que DEUS seja sempre presente em cada gesto seu. Que o exercício do poder lhe forje não para o aniquilamento do ser, mas para o aprimoramento deste. E vc é um ser iluminado, até no nome aliás rs... Isabel LUZ, ação! O palco é seu. Faça o melhor, e sei que fará.
Estarei sempre na torcida e comemorando, aqui de fora, todas as conquistas da nossa Educação.
Obrigado pela sua amizade, sentirei saudades de suas risadas tão boas e das nossas conversas amistosas entre uma agenda e outra. E saudades até dos nossos momentos de tensão ante as tantas batalhas do dia a dia.
Peço perdão por eventuais falhas minhas e rogo a JESUS toda a proteção que você merece.
Para lhe ser franco, levo comigo alguma sensação de impotência ante a minha sina de querer "revolução", de querer menos tecnocratas e mais ações afirmativas, de querer romper com o status quo e fazer as coisas acontecerem no ritmo dos sonhos.
Ainda assim, saio sem levar comigo nenhum câncer em potencial. A gente só o contrai quando somatiza as dores do mundo. Não arrasto correntes. Sou um libertário, feliz apenas por viver e transitar por essa vida com o rosto em direção ao sol para deixar as sombras para trás. Sou homem de fé e de ação.
A Seduc é apenas uma imagem sumindo no retrovisor, da qual sentirei saudades pelas pessoas que me acompanharam, pelos ideais que abracei e pela experiência que agora se vincula à minha própria existência. Não me apeguei a status, nunca vesti a roupagem da arrogância, a mosca azul nunca me picou. E estou certo de que o melhor está por vir. Para mim e para o Estado, pois sei que muita coisa boa haverá de ocorrer ainda neste governo. Como cidadão, fico nesta expectativa, e hei de aplaudir as vitórias e conquistas dos nossos gestores e, particularmente, do governador Confúcio, em favor da sociedade.
Por paroquial que possa parecer, gostaria que fossem mantidas as ações previstas para Vilhena. Continuarei, como cidadão, comunicador e político, cobrando do Governo aquilo que pactuei com a sociedade vilhenense:
1) A Escola Marciano Zonoecê, no local da Casa de Detenção, que terá uma simbologia e uma importância muito grande para a sociedade local. Tenho o orgulho de tê-la concebido em ideário e que a obra que empolga a tantos possa, de fato, ser um marco do Governo Confúcio Moura.
2) EFA - Foram muitas as conversas com o pessoal do Sindicato Rural, Seagri e sociedade acerca da possibilidade de uma ESCOLA FAMÍLIA AGRÍCOLA em Vilhena.
3) Quadras poliesportivas do EJA (sonho de 30 anos da sociedade local) e da Escola Professor Luiz Carlos (a escola mais simples da cidade, numa área periférica, e a única que não dispõe de quadra). Os dois terrenos foram doados ao Estado pela prefeitura ao Estado a nosso pedido.
4) Dar dignidade ao próprio Estado instalando a CRE em imóvel próprio. Sugeri a escola Marizete Mendes, com essa sendo transferida para o antigo Anglo, escola particular localizada em plena Marques Henrique, que poderia ser adquirida pela Estado por R$ 3,5 milhões. Está toda dotada de climatização, laboratórios, aparelhamento desportivo... O Estado não deveria perder essa oportunidade.
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Sobre Alta Floresta, precisa do novo EJA. Fazer constar do planejamento de 2013. É indigno aquele imóvel de tábua em pleno centro, parecendo um galinheiro. O dinheiro do Proafi local está parado porque vão pintar o quê lá?
Gostaria que o governo observasse melhor o Colégio Tiradentes. Busquei de todas as formas sensibilizar, mas parece que existe um entrave. São 3 mil alunos por ano que ficam fora da escola por falta de vaga, a escola tem excelência, merece mais. Tem processo do ônibus para eles. Precisam para suas atividades didáticas e para levar os meninos para apresentações cívicas, que sempre orgulham a todos e são bom exemplo de culto aos símbolos da pátria.
Falamos em educação em tempo integral sem nunca ter olhado para a ação de gente como o Professor Eliezer, da Escola de Arte Daniel Neri, na zona Leste de P. Velho. Um idealista apaixonado que mantém a orquestra no contraturno; todos os instrumentos foram doados pelo MP. O prédio é precário, sem banheiro, e aqueles meninos e meninas nos dão exemplos cabais de como se portar. Sempre limpos, elegantes, com seus instrumentos numa escola pública estadual em que o Estado nunca se fez presente... Eles se doam ao Estado, e não o contrário. Ano passado mandei a todos para SP onde se apresentaram para públicos grandes e aprenderam a afinar instrumentos, tiveram ensinamentos para a vida... Não os abandone!
Nunca um secretário de Estado da Educação pisou em lugares como Jacinópolis, Nova Dimensão, aldeias indígenas... Eu fui e vi o caos. Mães com 13 anos, faltam professores, carteiras, livros, o básico do básico... Tem que ver, sentir, encaminhar, até mudar. Como falar em tecnologia, em revolução, deixando à míngua esses páreas que insistem em se educar num cenário nada atraente em que vigora a ausência do Estado. Dá para fazer! É só conhecer e cobrar, todos os dias.
Entrei nas escolas dos presídios. Já começaram algumas mudanças, a começar pelo nome. Nunca haviam sido ouvidos. Recebi a todos na Seduc e fui in loco nas escolas, presenciando até disparos de arma de fogo, na minha frente. Todos esses presos foram crianças um dia. Foram abandonados pelo sistema, destituídos de pão e de pátria, e são hoje o que são: fruto. A educação é libertadora. Não os abandone. Ouça sempre os servidores, sobretudo o Professor Ruzel, que sabe muito, é conselheiro atento e desinteressado, quer o bem da comunidade e o êxito do Governo.
Enfim, são tantas coisas... MAs por ora seria isso. Obrigado.
Júlio