Jair evitou nomes para não anular delação premiada
Na manhã desta segunda-feira, 24, o empresário Jair José de Souza concedeu uma entrevista exclusiva ao FOLHA DO SUL ON LINE, quando falou sobre a decisão da justiça federal, anunciada na semana passada, e que traz detalhes da delação premiada assinada por ele na Polícia Federal.
Dono da empresa Tend Tudo, que sofreu uma devassa de agentes da PF no mês passado, Jair garante que, ao contrário do que muitos imaginam, sua firma não foi partícipe e sim vítima da “organização criminosa” que, segundo o Ministério Público Federal, vem agindo na cidade.
Evitando quebrar o acordo de delação premiada e admitindo que teme por sua segurança, o empresário desabafa: “Fui extorquido. O que paguei para receber créditos que tinha na prefeitura saiu do meu lucro. Chegou num ponto que era prejuízo prestar serviço ao município”.
Sem citar os nomes beneficiados pela espécie de “pedágio” que era obrigado a pagar em espécie para receber o que tinha em haver, Souza explica que ganhou, de forma correta, através de licitação, um contrato para dar manutenção e fornecer peças aos veículos da frota municipal. “E só venci a licitação porque sou uma das poucas empresas habilitadas tecnicamente na região, com selo do Inmetro e profissionais treinados nas fábricas”.
Jair revela que o serviço prestado à prefeitura representava pouco no movimento geral de sua firma. “Eu queria sair, mas sempre havia quem insistisse para que eu continuasse. O medo era a frota municipal parar por completo, pois não existe empresa capaz de executar o serviço além da minha”.
Para demonstrar que teve mais dor de cabeça do que vantagens na relação com o poder público, o empresário informa: “Hoje está tudo parado, porque nenhuma firma quer vender ao município. Além do atraso nos pagamentos, quem trabalhava era obrigado a entregar parte dos lucros que iria obter”.
O empresário lembra que nunca superfaturou preço de peças e serviços para bancar a extorsão. “As mercadorias tinham preço de mercado e, em muitos casos, custavam até 30% menos. O dinheiro que ia para o bolso dos acusados saía do meu. Ou seja: o município não perdia. Eu é que era esfolado”.
HISTÓRIA
Paranaense de Florestópolis (PR), Jair tem 58 anos e foi gerente do Bradesco em Vilhena por três anos. Hoje, sua empresa é a quinta em número de empregados na cidade. Além da atuação na iniciativa privada, também milita em entidades de classe: é presidente do Clube dos Estados e diretor da Associação Comercial e Empresaria de Vilhena (ACIV).
Dizendo-se triste com o que está enfrentando, o ex-bancário, cujo pai é agricultor e mora em Cacoal, resume a situação: “Eu devia ter ouvido minha família, que me aconselhou a não aceitar prestar serviços à prefeitura”
PATRIMÔNIO
Para reforçar suas argumentações na PF e no MPF, o delator apresentou cópias dos documentos que revelam todo o seu patrimônio. “Tudo o que tenho foi adquirido há muito tempo. Minha firma, que graças a Deus é sólida e emprega mais de 100 pessoas, contraiu empréstimos para erguer parte de sua estrutura. Não dependemos de prefeitura, vamos continuar o trabalho que fazíamos antes de cometer a infelicidade de ganhar licitações”.
REAÇÃO
Jair disse que só resolveu se manifestar quanto à citação de seu nome para proteger o nome de sua empresa e para tranqüilizar os funcionários. Disse que não pretende fazer nenhum comentário que possa anular a delação assinada na PF. “Quem me conhece sabe que não sou homem de mentiras. Disse na PF toda a verdade sobre o que sabia e, se não conto mais aqui é porque me comprometi com o procurador da República em documento”.