*Daniel Pereira
 
AS DUAS LINHAGENS
 
No amanhecer do século XX, nas terras de São Paulo, firmou-se uma aliança entre duas linhagens de uma mesma raiz. Dois primos, Bernardo Dutra Pereira e Inácio Luiz Pereira, ergueram duas casas ao desposarem as irmãs Isabel de Jesus Pereira e Maria Francisca de Jesus Pereira.
 
E as famílias multiplicaram-se. Da união de Bernardo e Isabel nasceram, entre outros que o tempo guardou, Antônio Manoel do Prado, Sara Dutra e Francisco Dutra Pereira. Da união de Inácio e Maria vieram ao mundo quatro filhas e quatro filhos, entre os quais os irmãos João, Joaquim e Manoel — todos chamados de “Inácios” em homenagem ao pai —, além de José Maria Pereira Sobrinho: aqueles que o destino reservara para desbravar o Norte.
 
O ÊXODO PARA O SUL
Antes mesmo que o século dezenove findasse, os primos Bernardo e Inácio partiram de sua terra natal. Como antigos nômades, caminharam por seis longos anos até avistarem o noroeste paranaense, assentando tendas na região onde brotaria a cidade de Campo Mourão.
 
Mais tarde, já nas primeiras luzes do século vinte, as irmãs Isabel e Maria seguiram os passos de seus varões. A jornada foi dura, vencida em lombo de animais por mais de trinta dias de sol e poeira. Corria o ano da graça de 1911 quando Maria — que o povo passou a chamar de "Maria do Inácio" e, depois, "Maria Inácia" — completou a travessia.
 
Trazia no ventre a primogênita Benedita Pereira, uma das primeiras vidas a chorar e florescer naquele solo que, décadas depois, seria cidade. Eram homens e mulheres da terra, que buscavam no chão paranaense o pão e o sustento de suas sementes.
O RECONHECIMENTO DO PIONEIRISMO
A história das terras paranaenses reconhece o valor de seus pioneiros. O alvorecer do futuro município de Campo Mourão fundou-se com a chegada de colonos oriundos de São Paulo, os primeiros a plantar e colher naquelas terras prósperas. Entre eles, destacam-se os primos Bernardo e Inácio, acompanhados de suas esposas. O esforço e a bravura da família Pereira foram imortalizados décadas depois, dando nome a uma das principais vias da próspera cidade: a Avenida Irmãos Pereira.
 
A PROMESSA DO NORTE
Passaram-se os anos, e os olhos da família voltaram-se para o setentrião. No início da década de setenta, quando o jovem Território Federal de Rondônia possuía apenas duas cidades — pouco mais que vilas: Porto Velho e Guajará-Mirim —, os primeiros daquela estirpe cruzaram as fronteiras da nova fronteira, habitando as paragens que hoje se chamam Ji-Paraná, Ouro Preto, Jaru e Ariquemes.
 
No ano de 1975, Antônio Manoel do Prado, junto a sua irmã Sara Dutra e ao cunhado Antônio dos Santos, além de Dulcina Donato Pereira (viúva de Francisco Dutra Pereira) e seus filhos, chegaram às terras de Vilhena. Não tardou para que os primos ouvissem o chamado: Manoel veio em 1977; José Maria, em 1978; Joaquim e João, em 1979. Assentaram-se todos na localidade do Quilômetro 21, hoje a cidade de Colorado do Oeste.
 
Ali, pelas mãos do Incra, erguia-se o Projeto Integrado de Colonização Paulo de Assis Ribeiro (PIC-PAR), a sementeira de onde germinariam os municípios de Colorado do Oeste, Cerejeiras, Cabixi, Corumbiara e Pimenteiras.
 
O SUOR E O FRUTO DA TERRA
E a terra foi repartida. Os primos José Maria Prado e José Dutra Pereira receberam seu quinhão em Colorado do Oeste. Antônio dos Santos e seu filho, Mozair Divino dos Santos, herdaram as matas de Cabixi. Joaquim e José Maria fixaram-se em Corumbiara, enquanto Manoel Inácio fincou suas raízes em Pimenteiras. A Antônio Manoel, o destino reservaria seu pedaço de chão em Machadinho do Oeste, anos mais tarde.
 
Ao chegarem à herança de Colorado, enfrentaram o gigante verde da mata virgem. Com as próprias mãos, ergueram choupanas precárias e lançaram as primeiras sementes ao solo rondoniense. Das mãos calejadas dessa família tombou a floresta que deu lugar à área urbana daquela cidade, antes mesmo que cada um partisse para as glebas que o governo lhes entregara.
 
A partir daquele ano de 1975, começou um novo tempo para os Prado-Dutra-Pereira. Suas vidas misturaram-se à história daqueles que viram a fundação do Estado, em 22 de dezembro de 1981.
 
OS PATRIARCAS E O DESCANSO ETERNO
Dos patriarcas e madonas que iniciaram a jornada em 1975, o tempo poupa apenas o casal Sara e Antônio dos Santos. Ambos já romperam a barreira dos noventa anos de idade e ainda habitam a mesma parcela de terra que o Incra lhes confiou na colheita dos anos setenta, na zona rural de Cabixi. Eles testemunham o tempo.
 
Os outros recolheram-se aos seus antepassados. Joaquim Inácio e sua esposa, Mariazinha, trabalharam a terra até 1993, quando retornaram ao Paraná, onde hoje repousam em Campo Mourão. Dulcina Donato, há não muito tempo, foi sepultada em Vilhena.
 
Em Colorado do Oeste, contudo, formou-se o solo sagrado da família. Ali foram sepultados Antônio Manoel do Prado e sua esposa, Ana Borba; os primos João Inácio e Aparecida; José Maria e Leonir Rocha; e Manoel e Eloina Rocha. Repousam lado a lado, em fileira, deixando aos vindouros a mensagem de que nem mesmo a foice da morte foi capaz de separar o que a vida uniu.
 
A MATRIARCA MARIA INÁCIA
Ergue-se na memória a figura mítica da mãe e tia Maria Inácia. Viúva desde 1938, quando o esposo Inácio Luiz partira, ela bravamente passou a conduzir a família de quatro filhas e quatro filhos. Apenas uma jovem quando chegara ao Sul, mais de seis décadas depois (em 1977) seguiu o filho Manoel rumo ao Norte desconhecido, já com 83 anos de vida.
 
Nos anos que se seguiram, entre 1978 e 1979, ela viajou sem cessar entre o Paraná e Rondônia. Como uma ave que recolhe os filhotes antes da tempestade, a cada viagem trazia um de seus filhos com suas respectivas famílias, até ver os quatro rebentos reunidos sob o sol rondoniense.
 
Cumprida a missão, Maria Inácia adormeceu no ano de 1985. Inaugurou, assim, o "condomínio do sono eterno" em Colorado do Oeste. Ali, na quietude da terra vermelha, a matriarca descansa junto a filhos, noras, netos e netas, enquanto a poeira de seus corpos se mistura ao chão que adotaram por pátria.
 
*DANIEL PEREIRA, ex-governador de Rondônia, é filho, sobrinho e neto dos destemidos pioneiros que nessas paragens do poente buscaram sua “terra prometida”.