“Uma vez que peguei meu filho todo ensanguentado dentro do banheiro”

No final da última semana, a reportagem do FOLHA DO SUL ON LINE foi procurada por moradoras de Colorado do Oeste, relatando a dificuldade no contato com os conselheiros tutelares do município, após o horário de expediente, uma vez que segundo as denunciantes, não há divulgação por parte do colegiado, da escala de plantões de forma mais acessível à população.

De posse das informações, a reportagem do site entrou em contato primeiramente com a direção do Hospital Municipal e com outros representantes da saúde, que confirmaram as informações, relatando já terem sido procurados por moradores, que se queixaram não somente da dificuldade de acesso aos conselheiros como também dos atendimentos prestados.

Em busca por mais informações que amparassem a denúncia, a reportagem teve conhecimento do caso de uma mãe que sofre com o filho depressivo, que nos últimos anos já teria tentado suicídio por três vezes e ela relatou que se sente desamparada pelos conselheiros.

Ainda segundo a mãe, que terá seu nome e o do filho preservados, já que ela afirma ter medo de represálias, todas as vezes que o filho tentou contra a própria vida, ela chamou o Conselho, mas representantes do órgão nunca compareceram, alegando, ainda segundo ela, de que casos de tentativa de suicídio não compete ao órgão.

A mãe relatou ainda que sempre foi muito bem amparada pela Polícia Militar, que nunca se negou atender as ocorrências com o filho, que já chegou a arrancar a tábua da parede do quarto para fugir de casa devido ao transtorno que sofre. Porém, apesar da presteza nos atendimentos, os militares não podiam tomar providências para ajudá-la a conseguir apoio público, uma vez que tal função compete ao Conselho Tutelar, que não se fazia presente.

“Em uma quinta-feira que procurei o Conselho desesperada, peguei o telefone do mototaxista para ligar no número que estava na porta do prédio e me disseram que só atenderiam no outro dia, pois já estava fechado. O único apoio que tenho vem de amigos, como de um policial que me ajuda conversando com o meu filho quando ele está em crise, pois não tenho mais condições de pagar psicólogo”, relatou a mãe.

Como afirmou que a agente de saúde que a atendia enquanto morava na cidade possuía mais informações sobre o sofrimento que tem passado com o filho sem a assistência do Conselho Tutelar, o site fez contato com  a pessoa mencionada, que alegou ter relatórios de todas as situações que presenciou e ouviu da mãe, assim como já informou seus superiores sobre o caso, se colocando também à disposição para fornecer o material à órgãos competentes.

“Em uma reunião com o Conselho perguntei sobre o caso dessa mãe e me deram o silêncio como resposta”, afirmou a servidora.

Após isso, no último sábado, 22, a reportagem entrou em contato com o Conselho Tutelar, através do número do órgão, exatamente às 07h37, sendo respondida às 11h49 pela conselheira Kaita Karilla Tavares M. de Andrade, que afirmou falar em nome do Conselho, formado também por Keila Bilac Jordão, Alessandra Guimarães da Silva, Magna de Oliveira Silva, Reinaldo de Souza Cabecioni, e que justificou a demora em responder, devido outros dois atendimentos prestados.

Kaita (colegiado), afirmou que o Conselho Tutelar está ciente de seu trabalho com a população e que sempre que o órgão é procurado tem atendido a demanda, possuindo documentos que comprovam tais alegações.

A servidora declarou ainda, que se a população não está satisfeita, o colegiado não sabe o porquê de não acionarem o Ministério Público e a polícia, e sim, optarem em procurar um jornal de outra comarca para fazer tal denúncia, uma vez que um dos primeiros atos no início do mandato foi passar a escala de plantão para todos os órgãos públicos, inclusive escolas, com telefone do plantão e também o telefone particular de cada conselheiro.

“Mas se vocês têm um documento dizendo que o conselho está sendo negligente para com a população de Colorado, peça para que essas pessoas abra um boletim de ocorrência contra o órgão”, concluiu Kaita (colegiado).

Diante da resposta da servidora, em nome do colegiado municipal, a reportagem fez contato com o presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), Nilton Anderson Melo Santos, que a princípio se comprometeu em averiguar a situação, atendendo pessoalmente a mãe e o adolescente, para quem foram repassados pela própria reportagem, nomes e endereço.

Porém, na manhã desta terça-feira, 26, Nilton retornou o contato com o site, alegando que de fato as conselheiras não estavam divulgando as escalas, devido a pandemia da Covi-19, mas que solicitou que fosse feito.

Em seguida, o presidente afirmou ter se informado do caso antes de procurar a família, alegando que o adolescente já foi atendido por psicólogos do município, havendo protocolo que comprova, porém, a mãe teria interrompido o tratamento por conta própria.

“Fica complicado, uma situação de ter que correr atrás da família para que continue o atendimento”, relatou Nilton.

Diante da resposta, a reportagem o questionou sobre as obrigações do Conselho em assegurar o direito do adolescente, uma vez que ele é considerado inimputável (não responde por seus atos), que seria insistir com essa mãe, já que ela teria interrompido o tratamento do filho, assim como é feito nos casos em que a criança não entrega os deveres escolares e os pais são notificados.

Porém, Nilton não respondeu, alegando não fazer parte dos trabalhos cotidianos do Conselho, porém, enfatizou novamente que o órgão possui documentos que comprovam os atendimentos prestados ao menor, inclusive encaminhamentos ao Ministério Público.

“Na verdade ela (mãe) também precisa de um atendimento psicológico pra saber como lidar com esse filho, porque o problema dele é bem complexo”, concluiu Nilton.

Com relação às alegações de Nilton, de que havia parado o tratamento, a mãe relatou que teve que sair da cidade para morar em um sitio para retirar o filho das ruas, já que o garoto foge e tenta se atirar de baixo de carros, porém, solicitou atendimento em casa, uma vez que o adolescente tem 13 anos e não aceita ser levado ao consultório. No entanto, foi informada que uma documentação seria elaborada solicitando a permissão, mas nada foi feito.

 “Já questionei para a psicóloga se quer que eu o leve amarrado, pois se chamo o conselho é porque tenho muito medo de machucar, porque quando ele tenta se matar temos que segurar muito forte, como uma vez que peguei meu filho todo ensanguentado dentro do banheiro”. 

Até a publicação desta reportagem, mãe e filho ainda não tinham recebido contato dos conselheiros municipais nem de Nilton.