Pesquisa mostra como, no início dos anos 60, os professores eram respeitados e a comunidade local girava entorno da escola
 
"A escola era o centro de todas as coisas. Tudo que as famílias precisavam, corriam para a escola, que era sinal de muito respeito. Nós professores éramos muito respeitados." Essa frase da professora Angela Maria Massarone, uma das pioneiras na educação de Vilhena, é um trecho dos vários depoimentos reveladores que uma pesquisa recente mostra sobre o início da Educação na cidade, dos anos 60 aos 80. Focada em resgatar o cotidiano do hoje Instituto Estadual de Ensino Wilson Camargo, a reconstituição historiográfica a qual a Folha do Sul Online teve acesso traz à tona um período em que a Educação não apenas formava alunos, mas também moldava uma comunidade em meio ao intenso processo de colonização da região Norte do Brasil.
 
Escrita por Helen Arantes Martins, da Unicamp, Josiane Brolo, da Unir, e Alceu Zoia, da Unemat, a análise “O cotidiano escolar na história de Vilhena-RO durante o processo de colonização da Amazônia no século XX” foi publicada em 2023 no dossiê “Histórias da Educação na Pan-Amazônia: Sociedades, Culturas, Tempos e Espaços”, parte da Revista Educar, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
 
A escola numa casa de madeira - O texto detalha que, em meio à então densa floresta amazônica que circundava a cidade, foi criada aqui, pelo Decreto nº 353, de 10 de agosto de 1960, a Escola Isolada de Vilhena, que apenas em 1977 seria nomeada de Wilson Camargo. A instituição iniciou suas atividades de forma modesta, funcionando primeiramente na casa da professora Noeme Barros Pereira. “A aula antes de chegar na escola foi na casa de uma professora. Era uma casa de madeirinha bem rústica e simples”, recorda a professora Eli Bitello. Essa simplicidade contrastava com a nobre missão que a escola assumiu: educar em um lugar marcado pela precariedade estrutural e pela ausência de políticas públicas efetivas.
 
Sem formação pedagógica formal ou materiais adequados, os professores utilizavam a criatividade e a experiência de vida para ensinar. "Os professores eram muito bons, cada um tinha seu método. Bom! Acho que não era método, né?! Era intuição, era jeito para as coisas. Era jeito de mãe!”, relembra João Ricardo Spagnollo, ex-aluno da escola. Essa abordagem quase maternal não apenas transmitia conhecimento, mas também criava laços afetivos profundos entre professores e alunos.
 
Conforme a pesquisa, um dos momentos mais marcantes do cotidiano escolar era a avaliação oral. As provas de leitura em voz alta eram consideradas "aterrorizantes" por muitos alunos. "Eu até fazia xixi nas calças! Me lembro como se fosse hoje," confessa Spagnollo. Apesar do temor, essas experiências moldaram a disciplina e a responsabilidade dos estudantes.
 
Criatividade na falta de recursos - Com escassez de livros e materiais didáticos, os professores improvisavam. Bitello conta que recortava jornais para criar “livros de aprender”. Além disso, gibis e revistas se tornaram recursos pedagógicos valiosos para estimular o interesse pela leitura. "Mesmo com todas as dificuldades, as aulas não eram interrompidas," lembra.
 
Devido ao tamanho diminuto da “Vila de Vilhena”, na época, a escola não era apenas um local de ensino; era o epicentro da comunidade. Além de promover festividades, os professores e diretores se envolviam em atividades como atendimento médico voluntário e organização de eventos culturais. "Parecia que a escola tinha que resolver todas as coisas," explica Massarone.
 
O material completo pode ser acessado aqui.