Há cerca de duas décadas o Fórum da Comarca de Vilhena teve entre seu corpo de magistrados o atualmente juiz aposentado Léo Facchin, que tem entre suas virtudes a extrema franqueza e ousadia para tentar romper paradigmas dissonantes ou contradições da frieza da lei com senso de justiça. Entre suas frases de efeito, uma das mais impactantes era a naturalidade com que declarava publicamente que “lei é uma coisa, justiça e moralidade são outras coisas”. 

A questão dos financiamentos de campanha de candidatos às eleições partindo de empresas privadas se encaixa perfeitamente em tal condição, posto que é difícil acreditar que uma empreiteira, por exemplo, doe verbas a postulantes de cargos públicos sem almejar algo em troca, exceto se a conduta da classe política nacional de um modo geral tenha sofrido mudança drástica de ontem para hoje. 

A operação “Lava-Jato” desencadeada recentemente pelo Poder Judiciário, partindo de investigações da Polícia Federal e denúncia do Ministério Público, está mostrando aos brasileiros o quanto a relação entre empresas e políticos está permeada de vícios, e é norteada como mera transação financeira e troca de favores. As investigações levam a crer que o empresário dá dinheiro aos políticos, geralmente através de agremiações partidárias, e depois apresenta a fatura do “ato generoso” sob a forma de exigência de favorecimento nas transações entre firmas e governo em todas as esferas do poder público. Quem defende que tal relação está isenta de comprometimento escuso, das duas uma: é trouxa ou pensa que os outros são bestas. E, usando a expressão de Facchin, não há nenhuma ilegalidade em atos do gênero. Já a moralidade destas transações é algo questionável.

No início desta semana a imprensa da capital veiculou reportagem acerca do assunto, citando dois políticos do Partido dos Trabalhadores que receberam doações de campanha em várias ocasiões partindo de empresas que atualmente estão sob suspeita de corromper políticos tendo como base a janela proporcionada pela legalidade do apoio financeiro. 

Partindo daí, a FOLHA DO SUL ON LINE elaborou pauta sobre o tema, e ao levantar informações se chegou a um político vilhenense que disputou cargo eletivo este ano, e em sua prestação de contas da campanha eleitoral deste ano constam declarações de verbas recebidas pelo Fundo Partidário Estadual da legenda a qual pertence oriundas de grandes empresas brasileiras que sequer possuem uma caixa postal na agência dos Correios da cidade. E existem outros casos por Rondônia e país afora.

Frise-se aqui que não existe absolutamente nada de ilegal na situação, e que as prestações de contas, tanto dos candidatos da capital quanto o daqui estão rigorosamente dentro da legalidade e norma estabelecidas. Em duas conversas que teve com a reportagem do site, o político destacou um aspecto importante: “Você acha que estas empresas sabem quem eu sou ou têm alguma relação ou interesse em mim?”, questionou com bastante propriedade o vilhenense. 

É evidente que na condição de homem público oriundo de um rincão amazônico, sua existência é justificadamente desconhecida por parte de empresários de tal nível. Porém, caso tivesse sido eleito, ingressaria numa classe bastante distinta da sociedade brasileira, composta por cerca de pouco mais de 600 pessoas que ocupam cadeiras no Congresso Nacional. A partir daí, com certeza passaria a ser conhecido por tais empresários, que de acordo com o que indica a operação policial em curso não se intimidam em apresentar a “fatura” do apoio dispendido na campanha eleitoral seja ao próprio eleito ou através do partido ao qual ele pertence. 

O contrário só ocorre, voltando a repetir a afirmação, caso a conduta geral dos políticos e empresários tenha sido alterada de ontem para hoje. Quem sabe o civismo e a decência tenham finalmente vencido a batalha contra o fisiologismo; ou então empresários foram contaminados por surto de cidadania e passaram a despejar montanhas de dinheiro aos políticos visando o bem da pátria, mas a realidade ainda convence que nada disso aconteceu.

O estranho é constatar que uma pessoa que se apresenta como alternativa de mudança de situações anômalas e nocivas à sociedade, e tem como expressão de destaque na retórica o termo “coerência”, considerar que a relação entre as duas partes não seja digna de questionamento, mesmo coberta pelo manto da lei.  As leis são produzidas justamente no Congresso Nacional, onde estão assentados em total harmonia com as normas vigentes muitos daqueles que só chegam até esta condição justamente porque tiveram suporte financeiro para conduzir suas campanhas.

O político vilhenense chegou a questionar a relevância desta reportagem (que acabou virando artigo, como sele), e num acesso de delírio sugeriu que se tratava meramente de uma tentativa de prejudicá-lo politicamente, “esmiuçando minha vida e minha prestação de contas à Justiça Eleitoral”, sem dar oportunidade ao repórter de revelar que na verdade a pauta surgiu em função da citação dos políticos da capital, e que nomes não seriam citados no texto.  A constatação de que o partido ao qual ele pertence repassou-lhe verbas com a origem citada acima foi mero resultado de trabalho rotineiro necessário para elaboração de reportagem com tal enfoque.