Aimoré comenta preconceito contra pessoa com deficiência


“Esses alunos não deveriam estar aqui, poderiam estar frequentando as escolas regulares”. Foi com essa afirmação que o diretor da APAE Vilhena, Aimoré de Barros, começou a entrevista sobre a Semana do Excepcional. 
Há dez anos à frente da instituição na cidade, o diretor falou sobre preconceito contra a pessoa com deficiência intelectual, denunciou prática comum nas escolas públicas municipais, e comentou sobre o apoio que a instituição recebe da sociedade local. 
Para Aimoré, os alunos hoje atendidos pelas APAEs em todo o Brasil deveriam está inseridos no ensino regular. “Estes alunos deveriam estar estudando nas escolas regulares, é um direito deles. As APAE’s existem para dar suporte aos Estados e as prefeituras, o ideal é que eles estivessem inseridos no ensino regular e viessem à APAE para fazer a parte de AEE (Atendimento Educacional Especializado). Infelizmente isso não vai acontecer”, afirmou.
Em suas declarações, Aimoré deixa claro não acreditar que o aluno com deficiência intelectual receba no ensino regular a atenção necessária para que aprenda. “Numa sala com mais de trinta alunos, como um professor vai atender a um aluno com deficiência intelectual? Com certeza este aluno vai ser o último da sala, porque a escola não dá o suporte pedagógico para este professor trabalhar. A culpa não é do educador, a culpa é do Estado, que não oferece a capacitação e as condições ideais para o professor”, disse.
E o diretor vai ainda mais fundo: denuncia uma prática que, segundo ele, é comum nas escolas vilhenenses, e que prejudica o desenvolvimento dos alunos com deficiência intelectual. Aimoré narrou que as escolas, principalmente as municipais, seguram o aluno com deficiência intelectual até aos 14 anos apenas por causa do Censo. Depois mandam esses alunos para a APAE. Aimoré denuncia que neste período eles vão sendo aprovados sem qualquer aprendizado, apenas pela idade. “É um crime o que as escolas do município fazem, e eles fazem com essa consciência, fazem intencionalmente em função do Censo, isso é muito grave. Mas acontece em todas as escolas do nosso município, nesta gestão, e em outras gestões também”, garantiu.  
O diretor falou também sobre o preconceito e revelou que o problema já começa dentro da família. “As famílias têm um grande preconceito, não o pai e a mãe, mas os parentes, como tios, primos e até irmãos”, disse Aimoré, e continuou: “O preconceito me deixa indignado. Vejo pessoas que vêm aqui que não bebem água nos nossos copos; talvez façam isso inconscientemente, mas fazem. Eu acredito que a partir do momento que você passa a conviver, passa a conhecer, a tendência é que mude, e por isso é importante que os alunos de outras escolas e a sociedade em geral venham à APAE, venham conhecer nossos alunos, interagir”.
Para o diretor, o preconceito na sociedade de um modo geral também é grande e se revela na crença de que os alunos da APAE são incapazes de aprender, de trabalhar, de serem independentes. “Não são, eles têm limitações, mas não são incapazes, eles têm potencial, eles demoram um pouco mais para aprender a ler, mas aprendem”, afirmou. 
E, por fim, Aimoré falou sobre a estrutura da APAE Vilhena e de como o município abraça a causa. Hoje a APAE atende, segundo Aimoré, 240 alunos. Para manter suas atividades, a entidade conta, principalmente, com o apoio da sociedade. “Vilhena é o município que mais apóia a APAE. Nas outras cidades o apoio vem mais em período de festas, não é cotidiano. Aqui em Vilhena nós temos esse apoio perene, são vários empresários, pessoas comuns, imprensa, a sociedade de um modo geral,  apóia a APAE”.
Aimoré revelou que a APAE Vilhena tem a melhor estrutura física e pedagógica do Estado. “Somos a que mais atende alunos, porque grande parte das APAEs não atende os alunos todos os dias, e sim três vezes por semana. Nós trabalhamos os dois turnos”, disse Aimoré. 
Segundo o diretor, as ações da APAE de Vilhena influenciaram outras instituições similares no Estado. Ele contou que até o ano passado cerca de 90% das APAEs trabalhavam apenas seis horas por dia. Este ano, 70% já trabalham nos dois turnos, como a de Vilhena.