Religioso que marcou época em Vilhena, a ponto de ser cotado para disputar a prefeitura da cidade, o padre Renato Caron falou ao FOLHA DO SUL ON LINE através do Facebook. A entrevista do religioso, que hoje atua numa missão religiosa/humanitária no Haiti, foi feita nesta semana.

Caron, conhecido pelo estilo informal, deixou a cidade há dois anos, com uma missa de despedida que emocionou os católicos, mesmo distante é a esperança de um grupo político local que prega a “terceira via” como forma de quebrar a polarização Donadon/Rover que marcou as últimas eleições municipais

 

Abaixo, na íntegra, as respostas do sacerdote às perguntas enviadas a ele pelo bate-papo da rede social:

 


Desde quando o sr. está aí?

Estou no Haiti desde abril de 2012.

 

Como é o trabalho no Haiti?

Falar disso em poucas palavras é complicado, porque teríamos muitos aspectos a serem abordados. Mas vale dizer que os desafios são mesmo bem grandes, porque envolvem sempre questões de abordagem mais difícil subjacentes na cultura haitiana, como o machismo e as relações de poder, a religiosidade popular eivada de superstições, a religiosidade formal descolada da prática cotidiana, e outras inerentes à falta de qualificação profissional, aos baixos níveis de educação formal e qualidade de ensino, ao burocratismo estatal e inoperância do Estado no atendimento das demandas da população, às condições de miséria da maioria da população.

 

Em que cidade o sr. trabalha?

Quando cheguei no Haiti, morei no interior do sul do país, numa aldeia de pescadores chamada Abacou. Agora resido na capital, Porto Príncipe, numa casa de formação da congregação dos freis capuchinhos do Rio Grande do Sul, interagindo com outras congregações e missionários/as brasileiros aqui no Haiti.

 

Quando o sr. volta ao Brasil?

Há muito por fazer ainda no Haiti, de modo que enquanto Deus nos der saúde e vontade pra enfrentar as condições por aqui, e sendo do interesse da congregação que me acolhe e da diocese que me apóia, devo permanecer por mais algum tempo. Até porque, ainda que o conhecimento da língua seja precário, mas possibilita agora bem melhor entendimento e, por conseguinte, com uma comunicação melhor há a possibilidade de muito mais êxito no trabalho.

 

Quais tem sido os principais problemas enfrentados?

Seguramente o primeiro e principal problema é a comunicação, que exige bastante e continuado esforço buscando sempre aperfeiçoar nossa expressão para atingir mais pessoas e com mais propriedade (termos específicos, linguagem dos jovens, das ruas, além do formal -creóle e francês- das escolas e igrejas). Mas também podemos citar o pequeno número de voluntários pra missão, a logística difícil, os recursos limitados, o formalismo religioso, visão assistencialista da maioria das instituições e igrejas atuantes no HAITI e consequente expectativa assistencialista da população com relação ao nosso trabalho. Tudo isso e algo mais tornam o desenvolvimento do país bem mais lento e distante.

 

O sr. mesmo quis ir ou foi enviado pela Igreja?

Se tomarmos a catequese por exemplo, ela também é um tipo de atividade missionária da Igreja. E, se num primeiro momento a gente pode até ser catequista motivado por algum outro tipo de circunstância, depois que a gente compreende e se sensibiliza pela necessidade de formação cristã de crianças, jovens e adultos, o engajamento em alguma atividade missionária dentro ou fora da Igreja é decorrente, como atitude absolutamente consequente de cada cristão, sem ser preciso apelar ao ‘querer’ ou ao ‘obedecer’ apenas. Da mesma forma quando a gente se deixa sensibilizar pelo sofrimento e as necessidades dos irmãos de qualquer parte do país ou do mundo, a missão surge como uma resposta imprescindível do cristão que torna irrelevante o fato de ser missionário por ‘querer’ ou por ‘obediência’.

 

E sobre essas especulações de que será candidato a prefeito de Vilhena? Existe possibilidade?

Não, não vejo possibilidade.

 

E, finalizando: que mensagem de natal o sr. gostaria de enviar aos vilhenenses?

Em um pequeno texto sobre “O Mistério do Natal”, S. Edith Stein nos aconselha: “Ponhamos nossas mãos nas mãos do Menino Deus, pronunciando o nosso ‘Sim’ ao seu ‘Siga-me’! Então, nos tornamos seus, e o caminho está livre, para que a sua vida divina possa passar para a nossa.” Celebramos isso em cada Eucaristia, em cada missa, mas o Natal nos recorda isso de uma maneira ainda mais intensa revelando toda a propriedade dessa afirmação. Assim desejo para todos os queridos amigos e amigas de Vilhena que com seu apoio e incentivo acompanharam desde o início a gente aqui no Haiti e ainda acompanham suas orações e amizade! Que em 2015 o nosso ‘Sim’ ao ‘Segue-me’ de Jesus se revele ainda mais consciente e generoso.

FELIZ e SANTO NATAL a todos e um ANO NOVO igualmente SANTO e FELIZ!