Num exemplo de superação e determinação, a aluna Catiussa Bianche de Souza, 30 anos, com necessidade educativa especial - surdez congênita, emocionou a todos os presentes na cerimônia de formatura da Faculdade de Educação de Colorado do Oeste (FAEC), conquistando o diploma de licenciatura em Pedagogia, depois de uma vida inteira enfrentando barreiras e preconceitos. “A vitória da acadêmica é nossa também, motivo de orgulho para seus colegas, professores e equipe gestora da faculdade, que conviveu com ela todos esses anos, dividindo suas dificuldades e alegrias, transformando a sua vontade de vencer num desafio para todos nós”, expressou o diretor da Faec, Professor João Maria Agustinho Fagundes Weiber.
Com a diplomação, a pedagoga Catiussa pretende atuar na área de educação especial, preferencialmente no ensino de portadores de surdez, ou ainda com supervisão ou coordenação educacional. Pretende conciliar os futuros compromissos profissionais com os afazeres na família, compartilhando-os com o seu esposo Gilberto, também portador de surdez, pais de um filho de 9 anos, Gabriel, que não nasceu com a surdez.
Uma trajetória de esperança das séries iniciais até a faculdade
Ao descobrir a filha surda, os pais se desesperaram, sem saber que direção seguir. Correram em busca de orientação de vários especialistas, cirurgias e fonoaudiologia, no desejo de ver a filha falando. Morando em Cerejeiras, a família pensou em buscar maiores recursos em grandes centros, mas perceberam que a solução estava ali mesmo, acreditando e amando a filha.
A trajetória escolar de Catiussa começou aos 6 anos de idade, junto a Promoção Social, onde iniciou a sua alfabetização. Mas, logo, transferiu-se para a APAE que contava com ótimos recursos pedagógicos e uma boa equipe de professores, cursando paralelamente a escola regular, a princípio na Escola Estadual “Floriano Peixoto”, a segunda série na Escola Estadual “Castro Alves”.
Foram dias de muitas dificuldades de comunicação, aprendizagem e interação com os coleguinhas, o que fortaleceu ainda mais o espírito daquela criança, preparando-a para os desafios a enfrentar pela frente. Essas dificuldades diminuíram quando aprendeu a ler e a escrever. Os professores a avaliavam através da leitura. A sua escrita era boa, caligrafia perfeita, com problemas apenas na produção e interpretação de textos. A tabuada também foi um grande obstáculo a ser superado.
Na terceira série uma situação inusitada marcou sua vida escolar. A professora admitiu dificuldades de comunicar, interagir e ensinar a pequena Catiussa. Foi quando, então, uma coleguinha, cheia de empatia, interpelou a professora dizendo-lhe: “se a senhora não for capaz, então que passe a turma para outra professora”. A classe estava disposta a mudar a professora do que ficar sem a colequinha Catiussa. A educadora, surpresa, assumiu o desafio e reviu a sua postura.
Os pais ainda acreditavam no milagre de curar a surdez e restabelecer a fala de Catiussa. Mas o milagre já estava acontecendo: a menina determinada e ousada vencia cada etapa dos desafios colocados pela vida, evoluindo a cada dia.
Quando já estudava na Escola Estadual “Tancredo de Almeida Neves”, Cerejeiras, a mãe, dona Ivanir, decidiu transferi-la para a capital para estudar no Colégio “21 de abril”, que continha classes especiais para surdos, sendo as aulas ministradas em linguagem de sinais em Libras. Lá, Catiussa integrou-se a uma comunidade de surdos e ainda realizou vários cursos. Foi uma fase de experiências muito ricas e produtivas, preparando-a melhor para concluir o ensino fundamental na Escola “Castro Alves”.
A pré-adolescente, Catiussa, parecia contentar-se com o que havia conseguido até ali. Decidiu parar de estudar, considerando que não daria conta de acompanhar o ensino médio: “sou surda e ter chegado até aqui está bom!”. Mas no seu íntimo, ela sabia que podia e queria mais.
Casou-se e somente em 2006 resolveu retomar os estudos, concluindo, sem esmorecer, o ensino médio no Ceeja (Centro de Educação de Jovens e Adultos) em Colorado do Oeste. Com a confiança e motivação em alta, Catiussa acreditava que a vida poderia querer mais da vida: “se cheguei até aqui, porque não prosseguir cursando uma faculdade?”.
Em 2009 prestou o vestibular e foi aprovada no curso de Pedagogia da Faec, encarando com apreensão, mas, ao mesmo tempo, confiante no universo completamente novo e enriquecedor que encontraria pela frente. Foram anos de sucessivos desafios de acompanhar o ritmo de ensino, fazer novos colegas e tirar notas. Além do acolhimento dos colegas de turma, duas amigas foram essenciais para a sua auto-afirmação pedagógica e emocional. No início do curso contou com o companheirismo da acadêmica Aline dos Santos Teixeira e, no final, da acadêmica Grassiele Sales Alves, cujo envolvimento a conduziu ao curso de pós-graduação em libras. “Quem tem amigos, nunca está só”, salientava Catiussa.
Por já comunicar-se bem em Libras, a sua inserção na faculdade tornou-se mais fácil. Mesmo assim a faculdade teve que reordenar medidas pedagógicas adequadas a condição de Catiussa, implicando numa postura pedagógica diferente dos docentes em sala de aula, orientados a exporem os conteúdos próximo de Catiussa, facilitando-lhe a leitura labial, utilização de recursos didáticos de projeção, adoção de trabalhos em grupos favorecendo a “leitura”, “interação” e “retirada de dúvidas” junto aos colegas. Os desafios foram iguais para Catiussa quanto para a faculdade.
Durante toda a sua jornada na faculdade, a instituição contou com a docente e especialista em Libras, Professora Marinalva Louzada Neves Bholer, que acompanhou e auxiliou o processo de aprendizagem e integração acadêmica de Catiussa. No decorrer de diversas programações do calendário escolar, várias palestras foram traduzidas simultaneamente pela professora, acompanhadas atentamente por Catiussa, que contou, inclusive, com a participação da professora realizando a tradução em apresentação de Trabalho de Conclusão de Curso, onde Catiussa obteve a nota máxima: 10,0.
De acordo com Weiber, as lições que Catiussa nos deixou são muitas, cheias de riquezas e sensibilidade, demonstrando que a inclusão de um aluno portador de necessidades especiais não é de modo nenhum uma tarefa fácil. “Requer um esforço conjunto entre o aluno e a faculdade, admitindo erros e reconhecendo os acertos, mas sempre mantendo o horizonte de que ali existe uma pessoa com o poder de transformar sonhos em realidade, como sempre nos inspirou Catiussa”, conclui o diretor.