"Em algumas aldeias aviões atiraram brinquedos contaminados com vírus da gripe, sarampo e varíola"
 
Em 1963, na região entre Mato Grosso e Rondônia, ocorreu o episódio conhecido como Massacre do Paralelo Onze, que marcou profundamente a história dos povos indígenas no Brasil.
 
Naquele período, políticas oficiais de ocupação do centro e norte do país estimularam a expansão agrícola e favoreceram a apropriação irregular de terras. Esse processo fortaleceu grandes latifundiários e abriu espaço para graves violações contra comunidades indígenas.
 
O resultado foi uma tragédia: estima-se que mais de 3.500 indígenas da etnia Cinta-Larga perderam a vida. Muitos foram vítimas de envenenamento, com substâncias tóxicas adicionadas intencionalmente a alimentos, em ações que contaram com a participação de agentes ligados ao Estado.
 
A imagem registrada por Der Spiegel/O Globo simboliza esse capítulo doloroso da história, lembrando a necessidade de preservar a memória e reconhecer os impactos dessas políticas sobre os povos originários. Fotos antigas voltam à vida quando encontram cores.
 
O Massacre do Paralelo 11, como ficou conhecido um dos mais horrendos episódios de que se tem notícia até hoje no Brasil, incluiu do roubo ao estupro, passando por grilagem, assassinato, suborno, tortura e outras agressões que chocaram o então ministro do Interior, general Albuquerque Lima, que mandou demitir um dos principais envolvidos no incidente, o então chefe do SPI, major Luiz Vinhas Neves, responsável pela chacina dos Cinta Larga.
 
Segundo o indigenista Ulisses Capozzoli, fazendeiros da região, com ajuda de funcionários do SPI, presentearam os índios com alimentos misturados a arsênico, veneno letal.
 
"Em algumas aldeias aviões atiraram brinquedos contaminados com vírus da gripe, sarampo e varíola", recorda o indigenista, que considera o Massacre do Paralelo 11 como um dos mais sangrentos confrontos acontecidos nas matas da Amazônia brasileira.

Os pistoleiros, liderados por Chico Luiz, a mando do seringalista Antônio Mascarenhas de Junqueira, invadiram a reserva indígena, armados de metralhadoras e winchester-44 ("papo-amarelo"), arma de alto poder de fogo, além de pistolas 38. "Os índios não tinham como se defender sob a fuzilaria deflagrada pelo disparo de Ataíde, mas o grupo só atravessou o rio quando se deu conta de que todos estavam mortos", acrescenta Capazzoli.