O município de Vilhena, conhecido como o "Portal da Amazônia", pode estar prestes a cruzar um portal político atípico na história de Rondônia e, possivelmente, do Brasil. As composições de chapa para as eleições deste ano desenharam um cenário curioso que, mediante uma combinação matemática e política, poderá dar à cidade do Cone Sul rondoniense o controle absoluto da bancada do Estado no Senado Federal simultaneamente.
O cálculo que viabiliza essa hegemonia regional envolve o atual mandato em curso e as engrenagens tradicionais da suplência parlamentar.
Atualmente, Vilhena já possui forte representatividade na Câmara Alta com o senador Jaime Bagattoli, eleito em 2022, e com mandato assegurado até 2030. Com as eleições em curso para a renovação das outras duas vagas de Rondônia (um terço e dois terços do Senado se alternam a cada quatro anos), o xadrez político colocou mais dois vilhenenses na linha de sucessão direta.
A candidata Sílvia Cristina traz em sua chapa, como suplente, o empresário vilhenense Marcelo Lucas. Em um movimento paralelo, o candidato Bruno Scheid também olhou para o Cone Sul e o setor produtivo ao escolher Guilherme Teodoro, igualmente de Vilhena, para a sua suplência.
Caso Sílvia Cristina e Bruno Scheid saiam vitoriosos das urnas, a bancada titular de Rondônia será inicialmente formada por eles e por Bagattoli. No entanto, é a dinâmica comum do Legislativo que guarda a possibilidade do alinhamento inédito.
“ALINHAMENTO DOS PLANETAS”
No Senado, é uma prática política rotineira que os titulares se licenciem do cargo temporariamente. Esses afastamentos ocorrem por diversos motivos: licenças médicas, convocação para assumir ministérios ou secretarias de Estado, necessidade de disputar eleições municipais (como para prefeito), ou por acordos políticos pré-estabelecidos de "rodízio" para prestigiar e dar visibilidade aos suplentes (geralmente em licenças superiores a 120 dias, que obrigam a convocação do substituto).
Se, em algum momento ao longo da próxima legislatura, Sílvia Cristina e Bruno Scheid (caso se elejam) se licenciarem simultaneamente de seus mandatos, o Senado convocará imediatamente seus suplentes. É neste exato instante que a curiosidade estatística ganha vida: Marcelo Lucas e Guilherme Teodoro assumiriam as cadeiras.
Ao lado do titular Jaime Bagattoli, eles formariam (é sempre importante lembrar: se vencerem a disputa) uma bancada 100% vilhenense. As três vozes com poder de voto por Rondônia nas comissões e no plenário do Senado representariam a base política de um único município — um fenômeno raríssimo em Estados onde a capital e diferentes mesorregiões costumam fragmentar o poder para manter o equilíbrio de representação.
PESO ESTRATÉGICO
Para Vilhena, uma cidade com forte base no agronegócio, na logística e com economia pujante, ter potencialmente três senadores despachando de Brasília ao mesmo tempo significaria um canal de influência, articulação de emendas e captação de recursos sem precedentes.
Embora a concretização desse cenário dependa de um duplo sucesso nas urnas e de uma sincronia de licenças no futuro, o simples fato de a configuração das chapas permitir essa probabilidade já demonstra o peso estratégico e a musculatura financeira e eleitoral que o Cone Sul conquistou no tabuleiro de Rondônia. Resta agora aguardar o veredito das urnas e, posteriormente, a tradicional dança das cadeiras nos corredores do Congresso.
OUTROS NOMES
Apesar de haver possibilidade de os dois nomes citados nesta reportagem se tornarem senadores, há outras lideranças políticas mirando o mesmo cargo, como Mariana Carvalho Republicanos, Fernando Máximo (PL) e Luciana Oliveira (PT), entre outros, igualmente competitivos.