Ao cobrir a tragédia que se abateu sobre uma família da cidade de Cerejeiras na manhã desta segunda-feira, 20, o repórter Rogério Perucci resolveu dar um tom pessoal à narrativa. Após acompanhar e fotografar o trabalho de resgate dos corpos dos três mortos no acidente, entre eles um bebê com dois dias de vida, o jornalista chegou a se chocar com as próprias imagens produzidas. VEJA TODAS ELAS FOTOS CLICANDO PARA AMPLIÁ-LAS:
Abaixo, o depoimento do profissional, que começou a militar na imprensa de Vilhena há pouco mais de dois anos. Rogério revela o que sentiu ao ver ser retirado de dentro do rio, onde o carro da família caiu, o recém-nascido, cujo nome ou sexo ninguém soube revelar no calor do corre-corre, que atraiu Bombeiros e agentes da Polícia Rodoviária Estadual:
“Não fazia nem meia hora que uma desgraça recaía sobre a família do comerciante Ronaldo Lima Silva, num trecho da BR 435, que liga Vilhena a Colorado do Oeste, quando meu celular tocou. Era um passageiro que passava pelo local onde a caminhonete dirigida pelo dono do restaurante Sabores da Carne, em Cerejeiras, havia despencado numa ribanceira.
Enquanto me dirigia para o ponto onde a picape perdera o controle, tentava me prepara para as cenas típicas deste tipo de acontecimento. Mas nada me preparou para a primeira cena que fui obrigado a registrar, com as mãos tremendo para acionar o botão da câmera: o pequeno recém-nascido, um anjinho sem nome ou sexo, sendo retirado das águas pelos Bombeiros, que haviam vindo justamente da cidade para onde o bebê era levado pelo pai, a mãe e uma tia.
Em seguida, o pai foi resgatado, ainda com o cinto preso ao corpo. Ironia: o acessório, que tantas vidas salva, pode ter sido decisivo para provocar a morte de Ronaldo, pois com o carro imerso, ele deveria estar livre para tentar sair da cabine. O terceiro corpo resgatado foi o da tia do garoto, Claudinéia Silva Machado, cuja morte suspeita-se que também tenha sido por afogamento.
Graças a Deus, não vi a mãe, que ferida e em prantos, mal conseguia externar a dor de perder, além do marido, o pequeno a quem trouxera ao mundo dois dias antes. Segui para Colorado do Oeste e, lá, soube que Edivânia Silva Machado, de 32 anos, já viúva e sem o filho, fora transferida para Vilhena.
Nas aulas do curso de Jornalismo da Unir, do qual sou acadêmico, uma das primeiras lições passadas aos que pretendem exercer o ofício é: manter distância dos acontecimentos para que a narrativa ganhe isenção e, portanto, credibilidade. Peço aos leitores do FOLHA DO SUL ON LINE que perdoem essa minha ‘falta de profissionalismo’, mas eu, que já perdi um irmão e uma cunhada em um acidente, não encontrei outra forma de descrever o que assisti. E que não gostaria mais de presenciar”.
Rogério Perucci – Repórter