A médica Camila Dala Riva, mestranda pela UNIR, participada do evento ao lado de mestrandos do Tocantins, Paraná, Alagoas e Rio de Janeiro
A médica Camila Dala Riva, que atua na Unidade Básica de Saúde do Setor Industrial, em Vilhena, teve sua experiência de organização de fluxo e demanda escolhida para representar a região norte no evento nacional “Covid-19 e Atenção Primária à Saúde: contexto Epidemiológico e as experiências do Profsaúde nos territórios”. O vento é promovido pela Fiocruz, Abrasco e Governo Federal. A fase nacional será no dia 07 de agosto por videoconferência.
A experiência proposta pela médica teve como base a renovação de receitas de pacientes da UBS do Setor Industrial, que antes da pandemia acontecia mensalmente, em reuniões em uma igreja ou no CTG. Com o advento da pandemia e a necessidade de distanciamento social, o método de trabalho precisou ser reavaliado. “Antes era uma vez ao mês, juntava todo mundo em um local e fazia a renovação das receitas. Só que era uma coisa muito sem controle, ia gente de outras equipes, gente que pertencia a outras unidades; não conseguíamos controlar, porque não havia sistema pra saber quando que o paciente tomou a medicação, se o paciente tinha ido ao CAPS, ou se houve alguma ocorrência mais grave”, explicou Dala Riva.
A médica explica que o método implantado por ela e a UBS Industrial/Equipe Novo Tempo é simples. Ela conta que a renovação das receitas passou a ser semanal, e os pacientes são orientados a irem a UBS dez dias antes do fim da medicação. Lá, eles preenchem a solicitação e retornam na semana seguinte para retirar a receita. Por causa das duas caixas usadas para a guarda desses documentos, uma para os pedidos em análise e a outra para as receitas prontas, a experiência foi carinhosamente batizada de “Caixinha”.
Segundo a médica, com a implantação da “Caixinha”, foi possível fazer o monitoramento dos usuários, com a atualização cadastral e o melhor controle das receitas. “Ainda não é o ideal, ainda estamos muito longe, mas são experiências exitosas, ainda pontuais, mas quem sabe a gente possa replicar”.
A médica da família explica que o novo sistema, aplicado a mais de 60 dias, permitiu conhecer melhor os pacientes e possibilitou que a UBS realizasse as renovações de receitas apenas de pessoas que são acompanhadas pelas equipes da saúde da família daquela unidade.
“A Saúde da Família funciona com a territorialização. As equipes da Saúde da Família são formadas por profissional médico, enfermeiros e agentes comunitários de saúde, que são responsáveis pelo atendimento de uma população estimada de 6.500 pessoas de parte do Centro, 5º BEC, Vila Operária e Jardim Acácia. Vilhena é uma cidade privilegiada, pois tem várias unidades e cobertura superior a 90% da população”, pontuou.
De acordo com a médica, um dos problemas mais recorrentes é a automedicação. “Quando as informações não batem, por exemplo, o paciente pegou uma receita para 60 dias e volta depois de apenas 15 dias querendo outra, neste caso a gente faz um acolhimento com o NASF (Núcleo de Apoio a Saúde da Família) que conta com psicóloga, assistente social e farmacêutica”, disse a médica, antes de concluir: “Então, elas ligam, questionam para saber o que aconteceu, e é aí que aparecem as mais variadas histórias. Alguns tomam a medicação por conta, aumentam a dose porque estão sobrecarregados; outros porque o vizinho perdeu o filho e esteve depressivo e ele deu o remédio dele pro amigo; são muitas as histórias”.
Ainda sobre automedicação, a profissional de saúde disse: “Aqui nós falamos muito do autocuidado apoiado, que é trazer essa co-responsabilização do cuidado. Ou seja, o paciente precisa saber o horário de tomar o remédio, ele tem que ter a responsabilidade de pegar uma receita e tomar conforme a prescrição”, explicitou.
Todas essas informações possibilitam analisar caso a caso. “É uma maneira de promover a educação em saúde, a gestão. Porque a gente organiza a parte de cadastro, a dispensa de remédio, e dá atenção. Porque a gente está olhando esse paciente de uma maneira integral, e não somente resolvendo esse problema momentâneo da troca de receita”, avaliou a profissional da saúde.
Segundo a médica, as caixinhas exercem também outra função: a educativa. “Nas caixinhas, a gente libera material instrutivo de orientação sobre a importância de tomar os remédios no horário, os perigos da automedicação; e informações sobre a Covid-19. É uma maneira de socializar isso com os usuários”, disse.
Outro ponto que Dala Riva destacou foi em relação ao atendimento na UBS. “Antigamente, postinho de saúde era 20 fichas, os que chegassem primeiro eram atendidos. Hoje, não. Quando a gente organiza fluxo e demanda, de uma maneira ou de outra, a gente escuta, acolhe e atende todo mundo. E aí a gente vai direcionando conforme a necessidade e gravidade de cada caso”, destacou.
Como já citado, a experiência desenvolvida por Dala Riva e a equipe integra o mestrado da médica. “O mestrado profissional tem a intenção de capacitar profissionais para melhorar e qualificar o Sistema Único de Saúde. E essa ideia foi minha, mas como eu estou vinculada ao mestrado, eu compartilhei da minha experiência exitosa.”
Sobre o tema de sua tese de mestrado, que segundo ela aborda práticas colaborativas e interprofissionalidade, a médica disse que ainda é um assunto muito recente e pouco discutido no país. “Porque nós precisamos desconstruir várias coisas, desde a formação. Esses profissionais todos foram formados neste modelo biomédico. Já os novos médicos que estão sendo formados trabalham com o modelo biopsicossocial. As atividades são todas interligadas, conectadas. Eles trabalham muito essa questão de atenção, gestão e educação em saúde”, pontuou.
Sobre o SUS (Sistema único de Saúde) a médica, docente do curso de medicina, disse: “É um sistema lindo. Uma política nacional linda. Mas, quando chega na prática a gente não consegue aplicar isso, efetivar e consolidar essas diretrizes, esses princípios da atenção primária e do próprio Sistema Única de Saúde”, pontuou.
Camila Dala Riva é especialista em saúde da família, docente de práticas médicas do SUS no curso de medicina da UNESC, e mestranda do ProfSaúde pela Universidade Federal de Rondônia - UNIR.
Autor:
Rogério Perucci
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 15 de Julho de 2020, às 18:15