Acabou na polícia, cerca de 10 dias atrás, um desentendimento entre passageiros de um ônibus da prefeitura de Colorado do Oeste que leva pacientes para tratamentos médicos em Porto Velho. O episódio, que começou na cidade de Itapuã do Oeste, a poucos quilômetros do destino final, envolveu acusações de injúria racial.


De acordo com a professora Ivanil Magalhães da Silva, de 44 anos, que também é pesquisadora de questões raciais, ela faz acompanhamento de saúde a cada 6 meses, e recebe atendimento na Policlínica Oswaldo Cruz, em Porto Velho.


No dia dos fatos (tarde de 9 de agosto), após a parada em uma lanchonete de Itapuã, ela foi em direção ao veículo com os pacientes e, como o sol estava muito quente, tentou se proteger. Nesse momento, um passageiro teria se dirigido a ela, em tom debochado: " Não se preocupe com o sol, não adianta; a sua pele não queima, porque a pele morena não queima, não escurece mais".


Só após chegar na Casa de Apoio na capital, e acionar a polícia para denunciar o crime do qual tinha sido vítima, a educadora descobriu, ao registrar o Boletim de Ocorrência, que a hostilidade do passageiro teria sido motivada pelo fato de ele tê-la confundido com outra paciente.


Durante o trajeto do coletivo, a outra mulher, usando roupa da mesma cor da que era vestida pela professora, se irritou com um grupo de evangélicos que estava ouvindo hinos em volume muito alto, o que teria lhe incomodado.


“Mas a mulher com a qual que eles me confundiram só reclamou do barulho; em nenhum momento reclamou da criança que estava com o casal. A senhora, que é profissional da saúde do município, em nenhum momento chamou atenção da criança, só reclamou da altura do barulho e da altura que estava os hinos. Até aconselhou que usassem fones de ouvido, pedindo por favor”, revela Ivanil.


Na polícia, já em Porto Velho, o registro do BO cita atitudes da verdadeira autora das reclamações, mas como se fosse Ivanil, que garante não ter feito qualquer queixa quanto às músicas religiosas.


O homem que acabou sendo denunciado pelo crime racial é um idoso, que se trata de câncer em Porto Velho, e que estava viajando com a esposa e um neto autista aparentando cerca de 6 anos. Também morador de Colorado, o casal denunciado negou a ofensa racista, mas voltou a acusar Ivanil de atitudes que tinham sido adotadas pela outra passageira.


Após a oitiva dos acusados na polícia, a denunciante explicou que o que mais a irritou foi justamente ser acusada de coisas que outra pessoa fez. O caso deverá ser investigado.


DEPOIMENTO GRAVADO

Ao ser ouvido pela polícia, um homem que testemunhou o ataque contra a denunciante, e que conhece o acusado há muitos anos, confirmou o relato dela. A fala desse personagem, que viajava no mesmo ônibus, foi gravada pelos policiais envolvidos na ocorrência.