Moral da História
DOCE PRA MACACO
 
*Luciano Breder

 
A chegada daquele circo à minha cidadezinha mineira de Alto Caparaó foi um sucesso. Agitou a pequena população, e era a alegria da molecada.
 
Eu era um dos que acompanhavam o palhaço pelas ruas da cidade, pulando e gritando palavras de ordem, anunciando o espetáculo da noite. Recebia uma marca de tinta na mão, que era o “passaporte” entrar de graça.
 
Dentre as poucas atrações de circo, a mais interessante era um macaco que ficava à porta o dia todo fazendo suas “macaquices” para a criançada. Quando alguém lhe dava um doce, ela agradecia fazendo suas caretas e acrobacias, enquanto devorava a guloseima.
 
Achando aquilo muito engraçado, corri em casa e pedi um trocado ao meu pai para comprar um pé-de-moleque para o macaco. Mas, quando cheguei, meio de forma atabalhoada com o presente na mão, não sei o que se passou pela cabeça do bicho que, ao invés de pegar o doce, ele pegou a minha mão, mordeu, e pulou logo em meu pescoço. O “estrago” só não foi maior porque o dono do circo estava por perto, puxou o animal pelo rabo, enquanto meu irmão me arrastava pelas pernas para longe, pois, o macaco já havia me jogado no chão –magrela que eu era. O macaco me agradeceu daquela maneira! Passei muito tempo sem querer ver macaco.
 
Muitos anos depois, já no ministério, no campo missionário em Cruzeiro do Sul, no Acre, ia eu no jipe da missão pela estrada lamacenta no meio da mata, embaixo de uma chuva torrencial, quando vi a figura de uma pessoa no meio da chuvarada, com um saco nas costas. Compadecido, parei, e vi que se tratava de uma senhora, muito cansada, por sinal, e completamente molhada.  Abri o carro e pedi que ela entrasse. Fiquei sabendo que ela ia para muito mais longe do que o meu destino; porém, a levei até o seu casebre, enfrentado atoleiros, e quase que abrindo caminho com o para-choque do Toyota em alguns lugares. Quando, afinal, ela mandou que eu parasse, indicando o barraco onde morava, desceu, bateu a porta com toda força, e entrou em casa sem sequer olhar para trás, sem nem um muito obrigado. Enquanto tentava manobrar o carro para voltar, me lembrei do macaco mal agradecido.
 
Quem nunca ficou assim, como eu fiquei, decepcionado, entristecido com  atitudes de ingratidão?  Um gesto, uma manifestação de reconhecimento, de gratidão por um favor recebido faz tanto bem...
 
Até o próprio Senhor Jesus, em Seu ministério terreno, teve esses dissabores. No Evangelho de Lucas, 17:11-19, lemos sobre dez leprosos que foram curados pelo Senhor Jesus, e apenas um voltou para agradecer pelo fato de estarem livres daquela enfermidade terrível. Jesus notou a ingratidão e disse: “Não foram dez os que foram curados? Onde estão os outros nove?”
 
Corações sensíveis, agradecidos por bênçãos recebidas é o que o Senhor Jesus espera de cada um dos seus filhos. Não está no coração do Pai atitudes de ingratidão, pelo contrário, atitudes de reconhecimento pelas indispensáveis bênçãos do Senhor dispensadas à nós. Quem não vive para servir, não serve para viver! Que grande verdade. Pensemos nisso...
 
Luciano Breder é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil