Relatos de mulheres que denunciaram o pastor presbiteriano e psicólogo Aluízio Vidal Flor, de 58 anos, por crimes sexuais em Porto Velho revelam um padrão de abusos cometidos durante aconselhamentos e uma sistemática descredibilização das vítimas dentro da comunidade religiosa.


A PRISÃO PREVENTIVA

O pastor virou réu em 1º de outubro, quando a Justiça aceitou a denúncia por estupro e violação sexual mediante fraude. O caso trata de crimes que teriam ocorrido entre 2012 e 2025 contra quatro das 12 mulheres que procuraram o MP-RO (Ministério Público de Rondônia). O órgão informou ao portal UOL que todas foram acolhidas pelo Navit (Núcleo de Atendimento às Vítimas), em Porto Velho, e uma segunda investigação apura os relatos das outras oito mulheres.


Vidal está preso preventivamente desde 15 de setembro. A prisão foi decretada pela juíza Keila Alessandra Roeder Rocha de Almeida. A defesa pediu que ele respondesse à ação em liberdade ou sob medidas cautelares, mas a magistrada negou os pedidos.


Uma das denunciantes é Mírian Rios, que relata como o religioso teria usado a confiança que inspirava para cometer os abusos. Mírian formalizou uma queixa ao MP-RO e à liderança da Igreja Presbiteriana Gileade. Outras mulheres também questionam a atuação da igreja diante das denúncias. Segundo elas, o tribunal eclesiástico minimizou o caso e transferiu para as próprias denunciantes o peso da suspeição.


“Fui transformada em prostituta e vilã”

As mulheres que romperam o silêncio dizem que, em vez de acolhimento pastoral, enfrentaram ataques à reputação e isolamento social. De acordo com os depoimentos reunidos pela reportagem, integrantes da liderança usaram sermões e reuniões internas para atribuir as denúncias a um "ataque espiritual" destinado a dividir a igreja e destruir a família do pastor.


De acordo com as denunciantes, criou-se uma narrativa em que o acusado era apresentado como vítima de perseguição, enquanto as mulheres que o denunciavam eram retratadas como uma ameaça à paz coletiva. Paralelamente, boatos nas redes sociais e nos bastidores da igreja questionavam a conduta moral e a saúde mental das vítimas.


Entre os fiéis, segundo Mírian Rios, dizia-se que as mulheres eram "bipolares", "instáveis", "depressivas" ou nutriam uma "paixão recalcada" por Aluízio. "Para explicar minha denúncia, passaram a dizer que eu era bipolar, instável, depressiva e mal-amada. Disseram que eu havia me apaixonado por ele, que tinha confundido as coisas e que queria meus 'cinco minutos de fama' por ele ter sido candidato ao Senado", diz Mírian.


A campanha de difamação atingiu a vida pessoal e conjugal da denunciante. "Chegaram ao extremo de espalhar que eu era garota de programa, que meu marido me negociava com outros homens e que eu tinha amantes", disse.


Como funciona o tribunal eclesiástico

A estrutura jurisdicional da IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil) é regida por sua própria Constituição e pelo Código de Disciplina. A denominação funciona como uma federação de igrejas locais, cujo governo espiritual e administrativo é exercido por concílios: Conselho local, Presbitério, Sínodo e Supremo Concílio.


Cabendo aos concílios zelar pela disciplina e pureza da comunidade, a apuração envolvendo ministros religiosos compete originalmente ao Presbitério, que atua como tribunal eclesiástico.


Em entrevista ao UOL, um pastor presbiteriano explicou, sob condição de anonimato, que o sistema se fundamenta em princípios bíblicos (como o capítulo 18 do Evangelho de Mateus). Em casos graves e notórios, o artigo 16 do Código de Disciplina permite o afastamento preventivo do ministro durante as investigações.


No caso de Rondônia, o rito institucional seguiu os seguintes trâmites:


Suasório: Mecanismo do artigo 43 do Código de Disciplina que funciona como uma fase conciliatória inicial. "Nada mais é do que uma conversa pastoral para conter danos", explicou o pastor consultado pela reportagem. Mírian relatou que estabeleceu condições para que essa conversa não ocorresse frente a frente com o investigado.


Vedação ao Hibridismo: O relator do caso no PPVH (Presbitério de Porto Velho) vetou a inclusão de relatos de outras mulheres para demonstrar reiteração de conduta, sob o entendimento de que cada acusação deveria tramitar isoladamente.


Exigência de Defesa Evangélica: A defesa de Mírian teve de comprovar membresia eclesiástica evangélica para ser admitida, conforme o artigo 56 do regimento interno da IPB. O pastor consultado avaliou que a regra visa garantir a idoneidade do ambiente, mas ressaltou que a norma deve priorizar o acolhimento da vítima.


O religioso ouvido pelo UOL criticou o uso do púlpito para autodefesa: "Ministros usam o púlpito para expor e desacreditar o denunciante, mobilizando a igreja contra ela." Ele lembrou que o processo eclesiástico não anula a esfera penal: "A disciplina eclesiástica não vai substituir a atuação da Justiça”.


No julgamento do Processo Disciplinar 02/2026, obtido pela reportagem, o plenário do PPVH aplicou a Aluízio Vidal Flor a pena de afastamento ministerial por tempo indeterminado por seis votos a quatro. A punição se baseou no fato de o pastor ter admitido um comentário impróprio sobre a aparência física e implantes de silicone de Mírian Rios (o acusado alegou que era uma "brincadeira”).


O tribunal considerou insuficientes as provas sobre contato físico no ambiente terapêutico, mas pesou contra o pastor um antecedente disciplinar interno por "pecado de fornicação”.


Denúncias anteriores e respostas da liderança

A apuração do UOL reuniu relatos de condutas abusivas atribuídas a Aluízio Vidal Flor ao longo de mais de duas décadas, envolvendo tanto frequentadoras da igreja quanto pacientes de seu consultório de psicologia.


Yasmin* disse à reportagem que sofreu investidas e abusos quando frequentava a casa pastoral, na década de 1990, à época, com 19 anos.


Ela afirma que, ao levar o caso ao Conselho da igreja, a liderança enquadrou o episódio como adultério mútuo, aplicou-lhe disciplina eclesiástica e manteve o pastor em suas funções. "Fui julgada como aquela que se ofereceu, como aquela que queria destruir o casamento do pastor", recordou.


Em 2006, outra mulher apresentou uma carta-denúncia ao Conselho, na qual relatava abordagens inadequadas e beijos forçados. Segundo os documentos e relatos consultados pela reportagem, o órgão, então presidido pelo próprio investigado, arquivou a denúncia por falta de testemunhas e sustentou que a fiel havia "confundido os sentimentos”.


Em 2009, líderes do grupo de jovens teriam alertado sobre o comportamento do pastor. Segundo os relatos reunidos pela reportagem, eles foram ameaçados com medidas disciplinares por incitação à rebeldia.


A paciente Sandra* relatou ter interrompido uma consulta após abordagens de teor erótico e uma tentativa de induzir um transe hipnótico sem seu consentimento no consultório particular de psicologia.


A dor e o contraste com a Justiça comum

O julgamento eclesiástico deixou marcas nas denunciantes devido à exposição de suas vidas privadas à comunidade religiosa. Durante a audiência do Presbitério, conversas pessoais mantidas em contextos terapêutico e conjugal teriam sido expostas pela defesa na tentativa de abalar a credibilidade das mulheres que denunciavam o pastor.


“Eu ainda acreditava que seria ouvida, acolhida e tratada com dignidade. A audiência foi um dos piores dias da minha vida. Diante de vários pastores, o advogado do acusado fez perguntas cruéis que, na minha percepção, buscavam me desestabilizar e desacreditar. Conversas íntimas mantidas em um contexto que eu acreditava ser terapêutico foram expostas. Em vez de o comportamento denunciado ser colocado no centro do julgamento, fui eu quem passou a ser julgada”, Mírian Rios, denunciante e ex-fiel da Igreja Presbiteriana Gileade.


Diante do desfecho na igreja, uma das supostas vítimas desabafou publicamente no púlpito durante o encerramento de um culto: "O que nos aconteceu foi crime, foi doloroso, foi vergonhoso. E eu não quero que nenhuma mulher passe por isso nesta igreja”.


Emocionada, a fiel criticou o desamparo institucional: "Vocês colocam a culpa em nós, as vítimas, nos fazem reviver a dor várias e várias vezes”.


A advogada Carla Begnini, que representa Mírian e outras vítimas no processo criminal, confirma o impacto do desamparo institucional. "A tristeza maior é que a igreja sabia", destaca a advogada. Segundo ela, a liderança "desestimulava as vítimas, descredibilizava as vítimas e sempre deram aquela palavra terrível: 'Foi só uma brincadeira'. 'Ela interpretou mal'.


Segundo Carla, o investigado "se vale muito da credibilidade que um líder religioso tem, principalmente porque eram mulheres que, mesmo que não fossem da igreja, acabavam indo na confiança de que um pastor, psicólogo, ele tem mais condições, preparo para lidar com situações”.


Begnini explicou que, embora casos antigos, iniciados em 1997, tenham sido arquivados pelo Ministério Público devido à prescrição, as vítimas prestaram depoimentos que ajudam a demonstrar a mesma forma de agir ao longo dos anos.


A advogada ressalta ainda que a prisão preventiva de Aluízio Vidal Flor foi indispensável para conter interferências na apuração. "A prisão preventiva foi em razão de que ele estava manipulando, através da liderança da igreja, do conselho", afirmou Carla.


Diante da continuidade dos ataques virtuais, como a publicação recente de ofensas à honra de Mírian no Instagram, momentos antes de uma transmissão ao vivo, a defesa jurídica informou ter registrado ocorrências policiais e ajuizado nova ação por danos morais.


OUTRO LADO

A reportagem procurou a defesa do pastor e psicólogo Aluízio Vidal Flor por e-mail e por mensagens de WhatsApp para que se manifestasse sobre as acusações e o andamento dos processos, mas não obteve resposta até a publicação deste texto. A liderança da Igreja Presbiteriana Gileade também foi contatada por e-mail e por mensagens no perfil oficial da instituição no Instagram, mas não respondeu aos pedidos de posicionamento. O espaço segue aberto.


*Os nomes foram alterados para preservar a identidade das entrevistadas.