“Entrei na prefeitura com três fazendas, e saí sem nenhuma”, diz Vitório Abrão
Uma das personalidades mais conhecidas da cidade, o ex-prefeito Vitório Abrão falou ao FOLHA DO SUL ON LINE, na semana em que Vilhena completa seus 42 anos. Vitório, primeiro prefeito eleito na cidade, comentou sobre a função que exerceu por 1 ano e 8 meses, na década de 1980.
Com cerca de 3 mil votos, Vitório assumiu o cargo em 1982, aos 33 anos, e conta que na época Vilhena era dividida em dois blocos: o dos empresários, e o dele, com o povo. “A eleição foi difícil, porque era o empresariado todo contra mim, junto com o povo nas minhas costas, mas, quem tem o povo, tem Deus, e conseguimos ganhar”, recordou.
Segundo o ex-mandatário, três partidos existiam na cidade: PDS, MDB e PT. Cada um poderia lançar três candidatos a prefeito, o que foi feito pelos dois primeiros; já o PT, lançou dois. No decorrer das eleições, dois candidatos do MDB desistiram do pleito, sendo que um passou a apoiar Vitório, que era do PDS. No final, a disputa ficou entre Vitório contra dois candidatos de seu partido, um do MDB e um do PT.
“Uma eleição difícil, ferrenha, e nós ganhamos voto a voto. Foram 300 e poucos votos a diferença entre eu e o segundo colocado. Eu sempre digo que as carreatas dele era todas com carros novos, a nossa era só de carro velho. Mas, foi uma campanha ferrenha e gostosa. Acho que Vilhena nunca mais terá uma eleição como aquela”, recordou.
O começo, segundo o ex-prefeito, foi bem difícil. Vilhena não tinha código de obras e postura, ou lei orgânica. Em seis meses, ele precisou criar os documentos, e também criou a Secretaria Municipal de Terras para fazer o desmembramento da área urbana e legalizar os lotes.
Mas, em seu curto mandato, Vitório deixou obras que até hoje são utilizadas na cidade, como o Parque de Exposições, a Prefeitura Municipal e o Hospital Regional. O novo Paço Municipal foi construído em homenagem aos índios, e em um local estratégico, no meio da cidade, para ficar prático o acesso da população.
Porém, a obra não saiu de acordo com o projeto do ex-mandatário, que conta que no projeto ainda tinha uma praça, com concha acústica e fonte luminosa. Além disso, o objetivo era que todos os órgãos de utilidade pública ficassem localizados na avenida Tancredo Neves, entre a Presidente Nasser e a Jô Sato, como bancos, órgãos federais e estaduais. Tudo perto resultaria em facilidades para a população ao necessitar de algum deles.
“Era um projeto muito bonito. Eu sempre tive uma visão de fazer obras para 50 anos, e já tá fazendo quase isso”, disse.
As principais avenidas também foram asfaltadas em seu mandato, como a Brigadeiro Eduardo Gomes, Major Amarante, Marques Henrique, José do Patrocínio, Marechal Rondon, Celso Mazutti, e até uma parte da Jô Sato. Foram quase 60 quilômetros.
Na mesma época foram construídos quatro postos de saúde e a policlínica João Luiz. 30 escolas rurais também fazem parte das realizações do ex-prefeito, além dos colégios Zilda da Frota Uchoa e Machado de Assis. O prédio onde hoje é a Unir, após ser a Prefeitura Municipal, passou a ser um instituto de educação para formar professores.
“Nós tivemos que trabalhar muito para, no prazo de um ano, deixar essas coisas andando. A sorte é que eu tinha muito acesso ao Governo Federal, então trazia muitos recursos. Eu aumentei o recurso do município em 1100%”, contou.
Porém, após um ano e oito meses no cargo, Vitório teve o mandato cassado.
“Eu não tinha experiência política nenhuma. Sempre disse que eu desci de um cavalo na fazenda para ser prefeito. Os vereadores que me cassaram se arrependem de ter feito isso, porque faltou experiência para ser político”, comentou.
Sobre as acusações de corrupção que direcionam ao ex-prefeito, ele comenta que foi absolvido em todas. “Dizer que roubei, que fiz isso, não podem falar porque eu entrei na prefeitura com três fazendas, e saí sem nenhuma”.
Porém, por ter perdido o prazo de recurso de um processo, ele foi condenado a 12 anos de prisão. Ficou 1 ano e 8 meses preso, depois cumpriu parte da pena no albergue. Vitório revelou ter pensado em deixar a cidade, mas, os vínculos que criou em Vilhena o fizeram ficar. Até mesmo quando estava detido, recebia as pessoas na Cadeia Pública.
“Ano passado que eu fiquei livre disso. Mas, tem o outro lado, e aonde eu vou todo mundo reconhece o meu trabalho, e vê as obras que estão sendo usadas ainda”, frisou. Agora, perto dos 70 anos, ele acredita que seja a hora de descansar da vida pública, e se dedicar a outros projetos.
Autor:
Jéssica Chalegra
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 21 de Novembro de 2019, às 12:54