*Dimas Ferreira
Sendo natural da região de Governador Valadares, no Leste de Minas, recordista na “exportação” de mão-de-obra ilegal para os Estados Unidos, creio ter alguma autoridade para falar do assunto que rendeu esta semana: a deportação de várias pessoas, incluindo uma família de Rondônia (entenda aqui).
Mais do que testemunhar desgraças e sucessos de quem foi buscar “o sonho americano”, ainda tenho centenas de amigos e parentes morando por lá, e falo com eles frequentemente. Também tenho um passaporte sem nenhum carimbo, que tirei em 1990, decidido a entrar na América para melhorar de vida aos 23 anos. Quando me falaram de desertos e coiotes (os humanos, que são mais perigosos), preferi vir para a Rondônia. Registre-se: a mudança de rota não aconteceu por alguma virtude minha, foi covardia mesmo!
O que constato, hoje, é o resultado deste ambiente político tóxico no Brasil, que produziu um fenômeno deprimente: os ilegais brasileiros nos EUA estão sendo apedrejados dos dois lados do conflito ideológico. Os petistas acham que eles devem mesmo se ferrar, afinal, a maioria votou no Bolsonaro; os bolsonaristas também acham que eles merecem o que estão recebendo, pois o presidente defende a medida. Enfim, solidariedade suprapartidária de antes virou esse festival de má vontade e falta de empatia.
Alguns talvez não saibam, mas ao menos de onde venho, tentar entrar nos EUA pelo atalho ilegal é coisa que acontece há mais de 50 anos. Não mudou nada, seja qual for o governo lá ou aqui. Deportações sempre aconteceram e continuarão pelas próximas décadas. Acostumem-se!
Claro que todos os que tentam esta aventura está perfeitamente ciente dos riscos. Conheço uma vilhenense que viu um coiote mexicano matar uma mulher na sua frente durante a travessia de um deserto. Ela continua lá, na ilegalidade, e está tão traumatizada que sequer pelo WhatsApp aceita relembrar a tragédia. Mas diz que, por livre e espontânea vontade, não faz o caminho da volta. Continuo insistindo com ela na entrevista...
Todo mundo sabe que, sem visto de entrada, brasileiro está desafiando a lei no país de Donald Trump. O risco para chegar é tão grande quanto o que se corre para permanecer. Menos mal que quase todos estão tentando é melhorar de vida, e não cometer crimes ou atos de terrorismo...
Têm toda a razão os que alegam que os deportados devem pagar por suas ações ilegais. A situação deles, traduzindo para o que conhecemos aqui, é a mesma dos ambulantes que invadem praças e espaços públicos para vender produtos e ganhar a vida: certo não tá, mas vai-se fazendo até que algum político ou promotor de justiça linha-dura arranque trailers e barracas das praças e calçadas. Numa (emigração ilegal) ou noutra (camelódromo sem alvará) situação, todos lamentamos, mas é a lei...
Agora se, por simpatia ou antipatia ao petismo ou ao bolsonarismo, você está vibrando com a desgraça de quem só buscava um pouco de dignidade, e ainda mandava dinheiro para o Brasil, lamento informar: quando a ideologia anula seu senso de solidariedade, você não deve se considerar mais uma boa pessoa.
P. S.: Talvez isso explique porque brasileiros seguem pra lá pra viver melhor, mesmo se matando de trabalhar, enquanto eles vêm para cá pra se divertir: naquele país, seja sob governo Republicano ou Democrata, o esforço dos cidadãos em defesa da nação é o mesmo!
*Dimas Ferreira é editor do FOLHA DO SUL ON LINE
Autor:
Dimas Ferreira
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 10 de Fevereiro de 2020, às 10:00