Após ler a reportagem publicada pelo FOLHA DO SUL ON LINE, na qual o vereador Jacy Alves, do PMDB, propõe o aumento de vagas na Câmara como forma de garantir empregos para pais de família, o jornalista Sandro Colferai enviou o artigo abaixo, tratando do assunto. Sandro, que atuou em vários veículos da imprensa local, inclusive na FOLHA DO SUL, atualmente leciona no curso de Comunicação Social/Jornalismo da Unir em Vilhena.

 

 

A favor de Jacy

 

O riso campeia a política, não há mais como contestar. E em meio ao verdadeiro concurso de humor em que se transforma aquilo que deveria ser discussões conscientes e de proposições, o destaque, de novo, deve ser dado ao vereador Jacy Alves. Bem, até aqui, nada de surpresa. Jacy, além de ser um dos raros brasileiros que quando perguntado pelo IBGE sobre sua profissão pode responder ser titubear “vereador”, é um fenômeno quando se trata de declarações tão apressadas quanto risonhas. Como se chatear verdadeiramente com uma figura que se encaminha para o folclórico, quiçá, o mito?

Nesta semana Jacy disse com todas as letras que uma das razões para aumentar o número de vereadores na Câmara Municipal de Vilhena é garantir emprego para mais cinco pais de família. Se para alguns isso causou estranheza, e apupos de raiva, eu concordo plenamente com o vereador. Por tudo que já fez, Jacy está conseguindo dizer o que quiser e ser pouco ouvido: riso é tudo o que começa a conseguir provocar. Mas deve ser levado a sério.

Faz todo sentido um vereador querer criar empregos na própria Câmara dos Vereadores, e assim contribuir para reduzir o número de vilhenenses desempregados. Sim, faz sentido, pois eles não conseguem fazer isso em nenhum outro lugar. Ao proporem quase exclusivamente iluminação pública e pavimentação de algumas ruas, nada mais fazem que possa dar empregos ou ter qualquer impacto na vida dos vilhenenses. Então, que aumentem o número de vereadores para que pelo menos cinco empregos, permanentes e rotativos, bem remunerados, com quase nada para fazer, sem necessidade de experiência anterior e nem formação específica, sejam ofertados. E pela quantidade de pré-candidatos tem muita gente interessada.

Eu tanto concordo com a iniciativa de Jacy que proponho que o número de vereadores seja ampliado ao ponto de dar emprego a todo vilhenense desempregado. Jogando baixo, acho que umas duas ou três mil vagas devem ser o suficiente. Uma baita Câmara Municipal. Um dos benefícios, além do óbvio crescimento do número de vagas de emprego, seria a possibilidade de todos os segmentos serem representados.

Para o Legislativo outro benefício fácil de imaginar é a infinita discussão a que todos os assuntos seriam submetidos, o que rapidamente seria convertido na melhor das desculpas para a improdutividade, que de todo modo hoje já abunda.Verdade que as sessões deveriam ser realizadas em espaços abertos, em praças públicas, e seria difícil distinguir um vereador de um cidadão comum. Mas, isso talvez levasse a Câmara de Vilhena a ser citada como exemplo de democracia.

E já que estamos em praça pública, e a distinção entre um vereador e qualquer outro cidadão seria imperceptível, todos poderiam dar opinião e votar. Seria perfeito. Mais perfeito ainda será se, partindo da lógica do vereador ad infinitum Jacy Alves, o emprego para pais de famílias como vereadores, levasse à própria demonstração de inutilidade do Legislativo como vem atuando. Sim, pois afinal, um Legislativo em que os membros vêem seus cargos como empregos e não como uma função delegada pela sociedade, não tem lá muita razão para existir. Que nos reunamos em praça pública, e decidamos nós mesmos nossas demandas.

Então, como ser contra a idéia de Jacy? É uma obrigação apoia-la. Se já tá bagunçado, talvez assumir a bagunça seja mais produtivo.

 

Sandro Colferai, 35 anos, é jornalista e professor do curso de Comunicação Social/Jornalismo, no campus da Unir em Vilhena.