Deitada numa cama na sala da casa da mãe, onde permanecerá por pelo menos mais 30 dias sem sequer poder sentar-se, a técnica em enfermagem Queila de Souza Lembranzi, de 25 anos, narrou a situação em que se encontra e falou de sua indignação com o diretor do Hospital Regional (HR), Adilson Vieira Rodrigues, o qual ela afirma não ter feito nada pelo seu bem estar. “Quero deixar claro que minha revolta é com a displicência dispensada a mim pelo diretor do HR, não com a instituição ou qualquer funcionário que nela trabalhe”, esclareceu a jovem.
Queila sofreu um acidente na manhã do dia 08 de março, quando voltava para casa depois de um plantão extra no HR, onde trabalha como técnica em enfermagem. Sua motocicleta foi atingida por um caminhão. O acidente aconteceu na avenida Sabino Bezerra de Queiroz, no entroncamento com a rua Ezequiel Silva Cassiano, no bairro Jardim América.
De acordo com a jovem, motorista do caminhão não teria sinalizado que manobraria para a esquerda e, quando ela realizava a ultrapassagem, ele a fechou numa manobra que não a permitiu evitar a colisão. De acordo com Queila, ela fraturou a perna direita, o acetábulo (bacia) e escápula (ombro).
A fratura mais grave foi a da bacia, que foi destruída pelo fêmur. A força da batida empurrou o fêmur de encontro ao osso da bacia, rompendo-o em diversos pedaços.
Queila foi socorrida e levada ao HR pelo Corpo de Bombeiros, e faz questão de afirmar que foi muito bem atendida, com agilidade e presteza. “A exceção do diretor, recebi de todos o melhor atendimento possível”, garante.
De acordo com relatos da jovem, que devido à cirurgia realizada na bacia, só pode ficar deitada, foi depois do atendimento de emergência que começaram os problemas. O fêmur causou uma destruição considerável no osso da bacia, e continuava pressionando.
Para não causar um dano ainda maior, foi colocado um tensor na perna de Queila. Esse tensor puxava a perna para baixo para distanciar o fêmur do acetábulo.
A jovem contou que pela série de fraturas e a complexidade delas, o médico que a atendeu recomendou que ela fosse mantida em um quarto isolado, a fim de evitar uma possível infecção. Mas, segundo a jovem, isso foi negado pelo diretor Adilson Vieira Rodrigues. “O prefeito e a primeira-dama estiveram no HR e, quando souberam da recomendação do médico disseram a ele (ao diretor), que providenciasse um quarto à parte para mim. Na frente dos dois ele disse que já estava providenciando, mas isso nunca aconteceu”, diz a moça.
A avaliação do ortopedista foi a de que a cirurgia teria que ser feita no máximo até o dia 22 de março, caso contrário a jovem, que é mãe de uma menina de três anos de idade, corria o risco de ficar paraplégica.
A jovem que conta que o diretor do HR alegou que, por se tratar de uma cirurgia de alta complexidade, a unidade de saúde não disponha de capacidade, nem de instrumento para a realização do procedimento.
Por intermédio da assistência social do HR foi feito contato com um médico de Porto Velho, o qual, após analisar os exames, teria respondido, por e-mail: “Não temos material disponível para lesões de alta complexidade como esta. Sugiro realização de TFD”.
TFD significa Tratamento Fora de Domicílio, procedimento que é adotado quando não se consegue a especialidade que se necessita na cidade onde o paciente mora. Geralmente se busca por intermédio do Ministério Público. Mas é um processo de razoável demora, e tempo era o que a família não dispunha no momento. Isso porque a resposta do médico da capital chegou somente no dia 17, cinco dias antes do prazo máximo estipulado para a cirurgia.
Em meio ao desespero a família cogitou removê-la para Cuiabá (MT), mas essa remoção seria feita de ambulância, o que descartou a possibilidade, pois a viagem agravaria o já grave quadro clínico da jovem.
E enquanto isso os dias se passavam e a família da jovem via se esvair as chances da moça não perder os movimentos das pernas.
Para sorte de Queila, o médico que inicialmente a atendeu, entrou em contato com um colega de São Paulo que, depois de conhecer o caso, se dispôs a vir à cidade para realizar a cirurgia, que foi agendada para o dia 24 de março, dois dias depois do prazo máximo dado pelo primeiro ortopedista.
De acordo com a família da moça, o interesse do médico pelo caso deu-se pela maneira da fratura. “Ele contou que existem quatro maneiras de se quebrar a bacia, a Queila quebrou da maneira mais complicada”, disse um parente da jovem.
A técnica em enfermagem disse que por ser uma cirurgia interessante para ele, o médico paulista cobrou um preço bem a baixo do que cobra por procedimentos similares. Ainda assim, o valor cobrado foi de R$ 17 mil, sendo R$ 12 mil da chamada caixa ortopédica. E R$ 5 mil para o médico.
A família tentou a verba junto à prefeitura que, segundo conta um parente da jovem, teria se prontificado a depositar os R$ 12 mil, valor a ser quitado antecipadamente para a aquisição do material necessário para a cirurgia.
Na sexta-feira, 23 de março, dia anterior ao marcado para o procedimento cirúrgico, o médico paulista liga avisando que o depósito não havia sido feito. E avisa que se isso não fosse feito aquele dia, ele não realizaria a cirurgia por que não adiantaria mais, a jovem estaria fadada a não andar mais.
Ao saber que a prefeitura não havia depositado o dinheiro, a família da técnica em enfermagem se mobilizou, conseguiu emprestado o valor necessário e realizou o depósito.
A cirurgia da jovem, que teve início as 09h00 da manhã do sábado, 24, durou mais de oito horas. E, segundo um parente da paciente, ao iniciar os procedimentos os médicos perceberam que a situação da fratura era ainda pior do que os exames mostravam. Mas, a cirurgia foi um sucesso.
A jovem recebeu alta há alguns dias e já está em casa. Mas, precisa permanecer 24h por dia deitada, por pelo menos 30 dias. Só então é que vai poder sentar. A moça faz tudo na cama: come, dorme, toma banho. Para tanto conta com a ajuda da mãe e de parentes.
Uma cama do HR, que tem um sistema de ajuste de altura, foi cedida à jovem. Mas, ela garante que até neste momento o diretor da instituição foi contra a ajuda. “Eu não sei qual é o motivo pelo qual ele me trata assim, não estou querendo receber nenhum tratamento privilegiado por ser funcionaria publica e trabalhar no HR. Só quero receber um tratamento digno como qualquer contribuinte”, explicou.
Sobre o montante gasto com a cirurgia, que segundo a jovem a administração municipal se comprometeu a ressarcir a família, até o momento nada foi devolvido. “Nós não entendemos porque um jovem que foi baleado numa briga teve sua cirurgia, que foi muito mais cara, paga integralmente pela Prefeitura, e a Queila foi tratada dessa maneira”, desabafou um parente.
Tomando uma série de medicamentos, a fatura mensal só com os remédios beira os R$ 1 mil. Sem contar a fisioterapia que ela precisa iniciar o quanto antes. E, segundo ela, uma prótese que terá que colocar em no máximo em 1 ano, custa, a mais barata, cerca de RS 35 mil.
O site tentou contato com o diretor do hospital a quem Queila acusa de descaso, mas não conseguiu falar com Adilson Vieira Rodrigues. No entanto, tão logo ele se manifeste sobre as declarações da servidora, sua versão será publicada.
Autor:
Rogério Perucci
Fonte:
Www.folhadosulonline.com.br
Publicado em 11 de Abril de 2012, às 16:53