“Seu único e exclusivo objetivo, quando você faz denúncia, é de se promover”
O clima esquentou entre os vereadores Dhonatan Pagani (PSDB) e Samir Ali (Podemos) na sessão legislativa da Câmara de Vilhena nesta terça-feira, 05. Ao final de sua fala sobre supostas irregularidades na Secretaria Municipal de Agricultura, Pagani fez a seguinte declaração: “Agora eu quero ver os heróis do prefeito que se levantam em meio de reunião pra responder o que não sabe por que não estuda, porque não verifica, porque não olha no Portal. Porque é muito fácil sem informação, você levantar e falar besteira. Agora eu quero ver você levantar aqui e mostrar os dados que são diferentes. Porque sem informação o herói aparece, com informação ele se esconde”.
Acontece que, segundo apurado pela reportagem, quem teria se levantado e questionado Pagani durante a defesa da sua denúncia na reunião das comissões da Casa na manhã da segunda-feira, 04, foi o vereador Samir Ali, que falou após Pagani e teceu críticas à forma como o colega agiu durante o discurso.
“Eu nem ia pedir a palavra, mas como eu indiretamente fui citado aqui, não poderia perder a oportunidade de ensinar o vereador Dhonatan Pagani a ser homem. Quando você se refere a um vereador, você não fala em meio termo, cita quem é o herói do prefeito. Você tem que virar e dizer: ‘vereador Samir, você agiu como herói do prefeito’”, criticou e continuou: “Você está certo de fiscalizar. Agora, quando você faz acusações, primeiro busque ter informações suficientes, para que você não seja injusto com nenhuma das pessoas que trabalham na Secretaria de Agricultura, ou na prefeitura, ou em qualquer outra coisa do tipo. Eu nunca repudiei o seu direito de fiscalizar. Eu acho que é correto, é justo. E eu vou estar sempre apoiando isso. Agora, tem que saber separar picuinha de investigação, fiscalização”, declarou Samir.
Samir argumentou ainda que a Secretaria de Agricultura tem problemas há anos, e que ele próprio já fez algumas denúncias de indícios de irregularidades, como uso indevido de máquinas, a contagem de horas/máquinas a mais, além do foco mais em arrecadação do que na prestação do serviços aos pequenos produtores.
“Há tempos vem tendo problemas na Secretaria de Agricultura. Pena que alguns vereadores só viram agora. A Câmara de Vereadores precisa cumprir com o dever dela de fiscalização. E eu vou estar aqui pra isso. Qualquer coisa indevida, irregular, nós vamos estar prontos pra denunciar, para repudiar quem fez e para entregar denúncia no Ministério Público. Eu nunca me neguei a isso. Agora, é preciso separar fiscalização de arruaça. É isso que a Câmara precisa começar a separar. E vereador, fica aqui a dica: toda vez que você for se referir a alguém, não faça meia termo, cite o nome, olhe no rosto, é assim que homem faz”, declarou.
Citado pelo colega, Pagani voltou à fala e declarou: “o que você chama de picuinha, eu chamo de fiscalização e os dados estão aí para serem mostrados. Quando você fala que eu não sou homem, o meu papel está sendo feito. Eu falei herói porque pode ter outros heróis; agora, se você vestiu a carapuça. Se você se considera um herói, o problema é seu, não é meu”, disse, antes de questionar: “Se você diz tanto que fiscalizou no passado, e se coloca como herói agora, o que mudou de lá até aqui? Porque veja só, se você fiscalizou tanto e agora a fiscalização reduziu o problema, não está em mim, o meu trabalho eu estou fazendo. E o que você chama de arruaça eu chamo de trabalho, porque os dados estão aí. Então, antes de você se levantar como herói pra falar um monte de baboseira, vai estudar. Vai estudar o orçamento, vai estudar a arrecadação”, finalizou.
O clima ficou ainda mais tenso ao ponto do presidente da Câmara Ronildo Macedo (PV), precisar intervir e ordenar que fossem cortados os microfones de ambos. Mas, a discussão continuou nas considerações finais; mesmo depois da fala do vereador Pedrinho Sanches, que argumentou que tais posturas não condiziam com a de um parlamentar e citar como exemplo que “brigas” semelhantes já teriam tirado dois vereadores da Câmara de Cerejeiras e dois da Câmara de Chupinguia, indo dois para o cemitério, e dois para a cadeia.
Primeiro a falar no segundo round, Pagani citou o livro “Churchill e a Ciência Por Trás dos Discursos”. Disse: “ele cita uma técnica chamada Argumentum ad hominem, que é quando o interlocutor ataca a honra e a moral da pessoa que passa a informação, e não a informação. Essa técnica é antiga e previsível. Quando você apresenta dados em um telão, com informações fundamentadas e precisas; e o interlocutor que opõe, ataca a honra e a moral, diz – você não é homem – quando ele faz isso é porque ele é incapaz de contra-argumentar os dados e os fatos”, afirmou.
Na sequência da sua fala Pagani argumentou que ele não mudou o seu direcionamento e afirmou que a sua campanha foi feita de um jeito, e que o seu mandato está sendo feito do mesmo jeito. “Eu não subi em palanque lá, e eu não vou subir em palanque agora. Eu não negocio o meu posicionamento, todos aqui sabem que o que eu disse lá atrás é o que eu estou fazendo agora. Muito simples, claro, e objetivo; cristalino igual as águas do nosso lençol freático. Eu não fico desviando do assunto técnico, dos dados, pra poder criar uma cortina de fumaça no meio do discurso. Eu sou homem! Vou continuar fazendo o meu trabalho, minhas fiscalizações. Isso aqui é uma balança de poder. Só que na minha balança eu não coloco um cargo aqui, um cargo ali pra mudar o meu posicionamento. Na minha balança não entra isso não. Não sei na balança de quem entra, porque aí vai se manifestar quem a carapuça servir”, declarou.
Pagani concluiu a sua fala dizendo: “Os senhores podem, em um momento ou outro, não exporem suas opiniões publicamente, mas cada um aqui sabe e faz um juízo de valor com base nas suas percepções. E você sabe quem negocia e quem não negocia. Você está aqui dentro, você sabe. Não é mistério pra ninguém. Você sabe quem coloca o voto a prêmio e quem não coloca. Você sabe quem está de um lado e pula pro outro imediato, você sabe também. Quem vai fazer o juízo de valor é o eleitor. Eu sou só um canal, sou só um caminho”.
Quando retornou ao microfone, Samir Ali esclareceu: “Eu não teci críticas direcionadas ao seu papel de fiscalizador. Agora o seu papel de fazer referência a mim sem citar meu nome, isso sim é uma atitude que de fato não é de homem mesmo. Essa atitude de querer falar alto pra mim, sem direcionar nome, sem falar pra quem que é. Isso eu questionei, foi esse o meu questionamento. O seu direito de fiscalizar ninguém te questionou aqui não. E nunca vai ser questionado. O direito de fiscalizar é todo seu. É um dever de todos nós”, ponderou o vereador.
Na sequancia, Samir rebateu as alegações do colega que sugeriu que negociatas em troca de apoio ao prefeito. “Agora, quando você faz referência a questão de negociatas, a questão de cargos, quem vende voto... Vereador, minha noiva é professora, ela trabalha de manhã e de tarde, faz horas extras pra completar o salário. E eu jamais interferi para que ela ganhasse um cargo comissionado. Ao contrário de você, que no primeiro mês de seu mandato colocou a sua irmã de criação aqui e depois teve que exonerar. Então, não venha querer pagar de moralista pra cima de mim não. Eu estou há 5 anos nesta Casa e nunca peguei 1 Real que não fosse meu, a não ser o meu salário. Eu tenho um filho, eu tenho uma mãe, tenho um pai, e ninguém vai crescer pra cima de mim com fala de negociata ou coisa do tipo. Seu único e exclusivo objetivo, quando você faz denúncia, é de se promover”, apontou.
Samir voltou a afirmar que seu questionamento foi em cima da forma velada como o colega se referiu a ele; e declarou que sobre a fiscalização, se ela achar qualquer coisa de irregular, que Pagani pode contar com a assinatura dele para uma denúncia no Ministério Público e Tribunal de Contas.
“Mas, não venha se referir a questão de cargos que não cola. Não é dessa forma. Não estou fazendo defesa pra Eduardo ou pra quem quer que seja. Estou fazendo defesa daquilo que eu acredito, eu sempre fiz isso. Sempre quando eu achei que algo estava errado, estava saindo fora do caminho, eu fiz a defesa do que eu acreditava ser o melhor para a população. Você não é melhor do que ninguém para estar desmerecendo qualquer um de nós parlamentares aqui, falando que fulano não é tão bom, ciclano não é tão bom. O meu questionamento foi em cima da sua atitude que não foi legal. Não foi legal você se referir a mim sem citar meu nome, foi somente isso. Não ao seu direito de fiscalizar; não faça confusão na cabeça das pessoas. Isso não é legal. Isso sim é cortina de fumaça”, afirmou.
Samir concluiu a sua fala reforçando que todos têm que trabalhar em conjunto pelo bem comum da população. “O meu foco sempre foi esse e não aceito que ninguém questione isso. Porque todas as minhas ações, e eu tenho muitas conquistas no meu mandato; muitos avanços graças as lutas que travei. Então, não vou aceitar que ninguém me desmereça”.
Autor:
Rogério Perucci
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 05 de Outubro de 2021, às 17:13