*Júlio Olivar
Era novembro de 1998. Eu morava na cidade, havia apenas sete meses. Junto com os tarimbados jornalistas Newton Pandolpho e Mario Quevedo, então meus colegas do tabloide "Folha do Sul", decidimos produzir um suplemento que denominaríamos "Documento Vilhena 21 Anos".
De pronto, o editor do jornal, Dimas Ferreira, acatou a ideia. E lá fomos nós para o trabalho de campo. Foi uma viagem e tanto ao passado. Descobrimos a primeira pessoa não-índia nascida onde é o núcleo urbano de Vilhena, Regina Fontinelli, uma descendente de cearenses, que em 1960 trabalhavam no canteiro de obras em torno da BR-029 (atual 364). Antes dela, as únicas pessoas nascidas na região eram da família Zonoecê (que cuidava da Casa de Rondon) e filhos de seringueiros distantes da atual zona urbana. Todos os demais eram povos indígenas aldeados ou nômades, sobre os quais eram/são poucos os registros.
Fazendo aquele jornal, há 21 anos, eu e meus companheiros de redação tivemos a oportunidade de remexer o baú de Vilhena, com rememorações que passaram por muitos pioneiros ouvidos para as matérias. Foi um trabalho sensacional, embora modesto, que me fez tomar gosto pela história local com nuances sobre a economia, a ocupação demográfica e as curiosidades do cotidiano.
Depois da "Folha", veio, em 2000, o livro "Vilhena conta sua história", de Pedro Brasil. Trabalhei diretamente no projeto, editando os textos e procurando dar uma forma o menos chapa-branca possível à obra, com acabamento gráfico quase precário. O interessante é que o livro aconteceu no calor do momento em que muitos personagens ainda estavam vivos e puderam apresentar suas vivências e versões da história.
Em mais de duas décadas, escrevi e tenho muito material inédito sobre inúmeros episódios, personagens e, ouso dizer, algumas "descobertas" importantes publicadas na imprensa e no livro autoral "Caminhos de Rondon", publicado em 2014, que apresenta passagens ocorridas em Vilhena. Fiz conexões das viagens de sertanistas e cientistas - a exemplo de Major Amarante e Lévi-Strauss - com a identidade de Vilhena, bem como mantive viva as memórias de personagens imprescindíveis como Marciano Zonoecê e Juscelino Kubitscheck. Ao último, dediquei, em 2010, a exposição de fotos pelos 50 anos de abertura da 364 e a passagem do presidente por Vilhena, que foram determinantes para a formação da cidade.
A rodovia aberta por JK — que aterrizou no campo de aviação construído em apenas 25 dias — permitiu a afetiva consolidação da integração nacional do "outro braço da cruz" (como apelidou a BR o ex-governador Paulo Leal) ao restante do Brasil, tarefa essa iniciada no início do século XX, pela Comissão Rondon, com suas picadas (estradas primitivas) e o telégrafo, cujos traçados serviram de referência para a aventura da rodovia.
Resgatei mais de 50 fotos raras e histórias de JK em Vilhena dos tempos da abertura da BR-029. Fui buscá-las em São Paulo, onde estavam com um antigo funcionário da empresa Camargo Corrêa, responsável pela construção da rodovia. Infelizmente, as imagens me foram furtadas. Acreditem! Mostravam cenas triviais dos primeiros dias da nascente Vilhena. Mas, ainda ficaram algumas cópias e materiais deste período que, um dia, pretendo expor à visitação pública.
Antes da rodovia, a colonização começou pelos seringueiros que se instalaram na região na época da 1ª Guerra Mundial. O território ao qual Vilhena hoje está inserido era todo parte do município mato-grossense de Santo Antônio do Rio Madeira – o maior município em área de todo o Planeta, que durou de 1912 a 1943, quando foi anexado ao Território Federal do Guaporé.
Moradores dos seringais de Vilhena são vistos em fotos de 1910, dançando em comemoração à inauguração do telégrafo que deu origem à cidade. Entende-se, simbolicamente, como marco-zero da cidade a implantação do Posto Telegráfico Álvaro Vilhena. A homenagem foi ao engenheiro maranhense Álvaro de Mello Coutinho Vilhena, ex-diretor do ECT, que morreu já aposentado, pobre e com câncer, em Juiz de Fora (MG).
No telégrafo viveu durante quase três décadas a família de Zonoecê, que veio morar no novo núcleo urbano em 1967. O entorno do antigo Posto ficou conhecido como “Vilhena Velha” e nasceu um cidade pujante em pleno Planalto dos Parecis.
Quarenta e dois anos. Neste 23 de novembro de 2019 comemoramos o dia em que Vilhena veio à luz como cidade, emancipando-se de Porto Velho. Em 1977 – tendo à frente o primeiro prefeito nomeado, Renato Coutinho do Santos –, a autonomia administrativa foi festejada no CTG, a TV Vilhena foi inaugurada, houve churrasco e cantoria, na cidadezinha faceira que, como dizia o locutor Castilhos era “A princesinha da Amazônia”.
Mas, muito antes da emancipação, como já vimos, a vida pulsava em histórias formidáveis, que passaram pelas famílias de Sargento Aymoré/Noeme Barros, Bonifácio Almodóvar, Sabino Bezerra de Queiroz, Alfredo Fontinelli, Manoel Régis, Paulinho da Andorinha, Gilberto Barros, Ângela Elias, Compadre Osvaldinho, Osmar Silva, Dari de Oliveira, padre Ângelo Spadari, Edwirges Duarte/Augusto Mailho... meu Deus, cometo um erro ao citar nomes, pois, foram muitos os iniciadores e responsáveis pela existência de Vilhena. A todos - os citados ou não -, minhas homenagens!
O fato é que, aqui, apenas, passeio pela minha própria memória, sem respaldos em documentos e menções bibliográficas; uma homenagem sincera, emocionada, a linda Vilhena, que conheci do alto da minha juventude, presenciando o último fôlego do Beron na avenida Major Amarante, da energia elétrica que ainda era, em parte, mantida pelos motores da Ceron, com o fornecimento suspenso todos os dias, em alguma área da cidade; vias centrais como a Liberdade e a XV de Novembro, sem asfalto; um tempo em que a cidade "bombava" na política, com os showmícios com atrações nacionais de ponta que levavam milhares de pessoas ao descampado onde, hoje fica o Shopping Pato Branco; vi a cidade tornar-se a mais urbanizada do estado, rica, com arquitetura ousada; lembro-me que meia dúzia de usuários tinha celular (o prefixo era 995) e internet discada fornecida pelos provedores Websat e Netview...
Vilhena nasceu grande (aliás, geograficamente abarcava todo Cone Sul), e embora hoje menor em área do que há 42 anos por conta da emancipação dos vizinhos, ainda é enorme e com uma população que a coloca como a quarta de Rondônia.
Tantas cidades antigas de estados do Sudeste e do Sul não têm, nem de longe, a estrutura de Vilhena: aeroporto, comércio moderno e conectado com o que há no mundo, economia respaldada no agronegócio competitivo com os maiores polos do País, indústrias relevantes, cidade-universitária com cursos disputados em faculdades particulares, campus da Universidade Federal de RO e Instituto Federal, hospitais público e privados – outro imenso sendo construído...
Quem diria que a vila que tinha uma escola coberta de palha teria um dia até faculdade de medicina? Era algo impensável para aquela realidade de atoleiros que ousavam chamar de “rodovia”, de teco-tecos barulhentos nos céus cobertos de fumaça, fazendo coro com o som infernal das serrarias; e parte da movimentação pela região era feita pelos cacaeiros que faziam as vezes de mulas de carga carregando seus mantimentos e abrindo caminhos a facão.
Vilhena cresceu em todos os rumos. Das casinhas de madeira em plena Major aos condomínios de luxo de hoje, é contundente sua prosperidade e fartura –embora exista concentração de renda e gritantes diferenças sociais que precisam ser dirimidas.
Outro aspecto que chama atenção é a religiosidade. É a “capital da fé”. Não há, proporcionalmente, nenhuma outra cidade com mais igrejas evangélicas no País; são cerca de 155. Algumas muito estruturadas, a exemplo da Assembleia de Deus e as tradicionais Batista Nacional, Presbiteriana do Brasil e as tantas neopentecostais. E os católicos também são muitos e unidos: são cerca de 45 comunidades.
É que Vilhena nasceu grande! E também nasceu na vanguarda desenvolvimentista da década de 1970, época do “Milagre Econômico”, do “surto sulista” pela ocupação de novas fronteiras. Vilhena nasceu como uma”filial” do Rio Grande do Sul no que se refere à cultura dominante e ao senso de ousadia e empreendedorismo; os gaúchos deram o tom no período, mas aos poucos tornou-se uma Babel que deu certo, recebendo gente do Brasil todo e de alguns países que aqui estabeleceram-se com suas colônias.
Sim, houve sacrifícios. A cultura étnica e da diversidade nunca foi o forte da cidade em relação aos que cá estavam — indígenas, seringueiros —, contudo, está sempre em tempo de se aprender e perceber que a riqueza material pode conviver com outros valores.
Enfim, Vilhena tem toda a estrutura muito superior a muitas cidades centenárias de qualquer ponto do país; tem cacife até para se tornar uma capital, projeto, aliás, já amplamente defendido no passado quando do ideário de se criar o utópico Estado de Aripuanã.
Da cidade, de quando cheguei, com seus 40 mil habitantes, até a Vilhena de hoje, com uma população de 100 mil - crescimento de 150% -, muita coisa aconteceu e o que vejo é que a urbe agora é dona de si, orgulhosa da sua condição de Canaã, a terra prometida de todos os vilhenenses, sejam estes por nascimento ou adoção. Viva Vilhena! Obrigado por todas as oportunidades!
*Júlio Olivar é historiador, jornalista e escritor
Autor:
Júlio Olivar
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 24 de Novembro de 2019, às 13:11