O senador e ex-governador de Rondônia, Confúcio Moura (MDB), fez um pronunciamento com críticas à “direita radical”, à polarização política no Estado e à composição do próximo Congresso Nacional durante a sessão deliberativa do Senado Federal realizada na quarta-feira, 7 de outubro de 2026.


No oitavo e último ano de seu mandato, o parlamentar rondoniense, que chegou a se apresentar como pré-candidato à reeleição, mas desistiu de disputar a continuidade no cargo, defendeu a aprovação imediata da proposta que acaba com a escala de trabalho 6x1, e declarou que está encerrando sua trajetória política. As informações são do site Rondônia Dinâmica.


Presidindo parte da sessão destinada à discussão da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, Confúcio demonstrou preocupação com a possibilidade de a nova composição do Senado dificultar a redução da jornada de trabalho.


O parlamentar criticou a ideia de adiar a votação até a posse dos congressistas eleitos em 2026, marcada para fevereiro de 2027, e associou sua preocupação à entrada de representantes com posições ideológicas contrárias à mudança.


“Não vamos esperar o novo Congresso empossado em fevereiro, não, e o e Senado, não, de jeito nenhum, porque esses que vão chegar em fevereiro não conhecem o debate; podem chegar aqui com algum fanatismo, alguma posição ideológica contrária, o que não vem ao caso. Nós temos que votar agora. Este é o momento, esta é a hora de votar.”


A manifestação ocorreu durante a segunda sessão de discussão da proposta, que prevê a redução da jornada semanal para 40 horas, com dois dias de descanso e sem diminuição salarial. Confúcio rejeitou o argumento de que a votação estaria sendo acelerada por causa do segundo turno das eleições presidenciais e afirmou que a matéria já havia passado por debates na Câmara dos Deputados e pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado.


“Há muita gente falando que é casuísmo votar a tabela 5x2 agora, no segundo turno das eleições. Não tem nada a ver. Ela estava na agulha para ser votada; e, no Congresso, praticamente de julho para cá, nós não trabalhamos, voltamos agora. Este é o momento intensivo de a gente pegar essas pautas que estavam acumuladas, engavetadas e dar provimento a elas.”


Para justificar a posição favorável à mudança, o senador comparou a jornada de trabalho atual com as transformações tecnológicas e as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores que dependem de transporte público. Segundo ele, em grandes centros urbanos, o deslocamento entre a residência e o emprego pode ampliar significativamente o tempo dedicado diariamente ao trabalho.


O parlamentar sustentou que o modelo de seis dias trabalhados para apenas um de descanso se tornou excessivamente desgastante. Também afirmou que o avanço tecnológico e as novas modalidades de trabalho justificam uma revisão das regras.


Ao encerrar sua participação na presidência da sessão, voltou a cobrar a votação da proposta, desta vez com uma crítica direta à diferença entre os regimes de descanso dos trabalhadores.


“E, como não há mais nenhum dos Senadores inscritos, eu vou encerrar a sessão... Aliás, suspender, porque ela está contando para nós votarmos essa PEC aqui da jornada de trabalho, de 6x1 para 5x2, porque as prefeituras, os Estados, os servidores públicos do Brasil e muitos já estão na tabela 5x2. Por que é só o assalariado lá que tem que realmente se arrebentar com a tabela 6x1, hein? Por quê? Tem essa não. Vamos votar agora.”


As críticas de Confúcio também alcançaram o cenário político de Rondônia após as eleições de 2026. O senador afirmou que o eleitorado estadual fez uma escolha favorável ao campo conservador, que ele próprio classificou como radical e extremista. Na avaliação apresentada em plenário, o ambiente de polarização tornou mais difícil a manifestação pública de opiniões divergentes.


“A polarização no Brasil, minha gente, é muito ruim. Ela é nefasta. Ela realmente cultua um princípio do ódio. Lá no meu Estado de Rondônia, a opção foi para o lado conservador, o lado da direita radical, extremista. E hoje, para você abrir a boca lá, para falar o que se sente, a gente tem que contar até dez, porque você, ao proferir qualquer entrevista, qualquer vídeo que você faça, a chuva de críticas e ofensas é muito grande.”


Confúcio relatou ainda episódios de hostilidade que, segundo ele, atingiram tanto sua atuação quanto a do ex-senador Acir Gurgacz, do PDT. O parlamentar afirmou que, após uma eleição anterior, ambos enfrentaram dificuldades para retornar a Rondônia em razão do ambiente político.


“Chegou-se aqui a um momento em que o Acir Gurgacz, no mandato passado, e eu, logo depois da eleição passada, nós ficamos seis meses sem conseguir ir ao Estado, porque não podia pegar um avião e nem desembarcar no aeroporto devido às hostilidades. Isso porque eu apoio o Lula, eu apoio o Presidente.”


O senador também direcionou críticas à administração federal anterior à de Luiz Inácio Lula da Silva. Sem citar nominalmente o ex-presidente naquele trecho, questionou os investimentos realizados em Rondônia durante os quatro anos do governo precedente e desafiou os ouvintes a apresentar exemplos de obras executadas no período.


“Agora eu quero mostrar para vocês de Rondônia, especialmente, para pegar uma caneta e anotar - anotar. O que foi feito em quatro anos do Governo anterior, pode anotar. E quem estiver me ouvindo aí, que me responda. O que foi feito no Estado de Rondônia em quatro anos, no mandato passado? Se você tiver uma resposta aí, eu vou lhe agradecer muito.”


Na sequência, Confúcio mencionou um desafio que, segundo seu relato, havia sido feito pelo ex-senador Amorim, morador de Ariquemes, oferecendo um automóvel a quem apontasse uma obra do governo anterior no Estado. Confúcio utilizou a história para reforçar sua crítica política e, em contraposição, elogiou investimentos atribuídos ao governo Lula.


Entre os exemplos apresentados, mencionou repasses para a saúde, transferência de veículos, iniciativas voltadas a exames e cirurgias, investimentos rodoviários, creches e obras inacabadas. Também citou a recuperação de um trecho da BR-364, em Itapuã do Oeste, que descreveu como um antigo ponto de dificuldades para motoristas.


O parlamentar atribuiu a solução do problema à atuação conjunta com o ministro Renan Filho e o presidente Lula. A comparação entre os governos foi acompanhada de novas críticas ao radicalismo político e às posições relacionadas à política ambiental.


“Então, é uma questão de opção, meus amigos. Você vai, por acaso, comer polarização? Você vai comer ideologia, radicalismo? Você vai comer extremismo? Vai? Você quer afrouxamento de políticas ambientais, desmatamento, desvario? Se for isso que vocês querem, está bem, eu fico calado. Eu não vou ser mais Senador, estou encerrando minha vida política.”


A declaração ocorreu no contexto do encerramento de seu mandato, depois de Confúcio ter abandonado a intenção inicial de concorrer novamente Senado. Ao longo da sessão, sua saída também foi mencionada pelo senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB), que lamentou a ausência futura do representante de Rondônia e de Paulo Paim na composição da Casa.


Outro ponto abordado por Confúcio foi o financiamento eleitoral. O senador classificou o atual sistema de distribuição dos recursos públicos como injusto e afirmou que parte expressiva dos candidatos enfrenta dificuldades para custear suas campanhas.


Segundo o parlamentar, a desigualdade no acesso ao fundo eleitoral pode estimular a busca por recursos irregulares. Ele também mencionou conversas com colegas que projetavam gastos de R$ 20 milhões e R$ 30 milhões em disputas eleitorais.


“Então, com isso, estão se empurrando os candidatos para a ilegalidade, para a transgressão, para fazer caixa dois, para buscar dinheiro por fora. Essa é a realidade.”


Confúcio defendeu uma revisão das regras de financiamento das campanhas, argumentando que os recursos não são distribuídos de maneira suficientemente democrática e igualitária. Também demonstrou preocupação com os candidatos que, diante dessas dificuldades, podem acabar envolvidos em processos na Justiça Eleitoral.


Já na parte final do pronunciamento, o senador voltou a comentar o ambiente de hostilidade política em Rondônia e relatou ter recebido uma recomendação para evitar manifestações públicas durante o segundo turno presidencial.


“Aí uma amiga minha me ligou anteontem e falou: ‘Olha, Confúcio, não se manifeste agora no segundo turno, não. Está muito perigoso aqui em Rondônia’. Mas como? Como eu não vou me manifestar, gente? Como? Como eu não vou falar a verdade? É só isto, é só a verdade. Não estou falando nada, nenhum absurdo aqui. Estou falando aqui, no microfone do Senado Federal, para o Brasil todo, especialmente para o meu Estado de Rondônia - falando publicamente. Quem é que vai levantar o dedo dizendo que eu estou errado aí? Uma pessoa apenas - uma pessoa? Não tem.”


Apesar do relato sobre os riscos apontados pela amiga, Confúcio manteve o posicionamento público e encerrou sua manifestação com referência ao segundo turno das eleições.


“Então, é isso. O jogo aí está claro. É uma opção, está bom? Então, vamos lá ao segundo turno. Vamos lá! Estou esperando. Vamos em frente.”


Depois do pronunciamento, o senador suspendeu a sessão às 14h58. Os trabalhos foram retomados às 16h29, sob a presidência de Davi Alcolumbre, para dar continuidade à apreciação da PEC 221/2019, que ainda estava em fase de discussão em primeiro turno no Senado.