“Nós nunca desistimos e vamos continuar lutando para que quem fez isso com o nosso irmão pegue pelo que fez”
 
A família do agricultor Domingos de Souza Francisco, morto por policiais militares em Vilhena há dois anos, continua buscando por justiça. A reportagem do FOLHA DO SUL ONLINE conversou com as irmãs de Domingos, que relataram como a morte do caçula, de forma tão brutal e injusta, abalou a família, que além da dor da perda, precisou viver o luto brigando para provar que ele não havia cometido o crime pelo qual foi acusado. A morte de Domingos completa dois anos exatamente hoje, 1º de novembro, e nestes quase 730 dias, a família do agricultor tem lutado por justiça.
 
“Nós nunca desistimos e vamos continuar lutando para que quem fez isso com o nosso irmão pegue pelo que fez, e para que isso não venha a acontecer com outras famílias”, disse Aparecida Souza, irmã de Domingos.
 
Conforme Aparecida, os pais de Domingos, Seu Rosalvo e Dona Júlia, que têm 75 anos, sofrem diariamente a perda do filho. “Meu irmão era muito carinhoso e prestativo. Um filho atencioso. Hoje, meu pai e minha mãe quase não têm vida. Meus pais estão destruídos com a perda de Domingos”, disse Aparecida, explicando que os pais moram no município de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, onde o corpo de Domingos foi sepultado. Na foto que ilustra esta reportagem, Domingos aparece ao lado dos pais.
 
ENTENDA O CASO
 
Acusado de assalto e morto a tiros pela polícia
Na madrugada do dia 1º de novembro de 2020, Domingos de Souza Francisco, que tinha 37 anos, voltava de uma festa quando viu um aglomerado de pessoas na BR-364, nas proximidades da avenida Melvin Jones. Ele foi estacionou a motocicleta na avenida Celso Mazutti e foi até o local para ver o que havia acontecido. Uma garota havia caído na pista e o motorista do ônibus havia parado para não atropelá-la.
 
Os bombeiros levaram a garota para o hospital e a multidão foi saindo até que ficaram apenas o motorista de ônibus, Wilson Kepler Monteiro Neres, de 50 anos, e Domingos, que continuava filmando e fotografando. Os dois discutiram e Wilson entrou para o interior do ônibus e Domingos, entendendo que o homem poderia pegar algo para lhe agredir, correu na direção de sua motocicleta, sendo e perseguido pelo motorista.
 
A certa altura, o motorista do ônibus encontrou uma viatura da Polícia Militar e, apontando para Domingos, disse que ele o havia assaltado e que estava armado. Domingos realmente estava armado: segundo a família, ele havia comprado a arma para se defender, pois estaria recebendo ameaças por causa de um desacordo comercial.
 
Os policiais citaram no boletim de ocorrência que Domingos teria apontado a arma para eles e que teria apertado o gatilho, mas a arma não disparou. Eles revidaram e acertaram sete tiros em Domingos. O boletim de ocorrência cita ainda que mesmo ferido Domingos teria sacado um canivete e investido contra um dos policiais. Mesmo ferido com sete tiros, Domingos foi algemado.  Ele não resistiu aos tiros. A família contestou a versão contida no boletim de ocorrência que acusava Domingos de assalto.
 
Motorista reafirma que foi vítima de assalto
Nos dias que se seguiram a morte de Domingos, diversos foram os depoimentos em redes sociais que defendiam a inocência do agricultor em relação à acusação de assalto. Na contramão, o motorista do ônibus reafirmou em depoimento que Domingos o teria assalto.
 
Suposta ameaça
Vinte e cinco dias após o ocorrido, o motorista Wilson Kepler procurou a reportagem do FOLHA DO SUL ONLINE e denunciou uma suposta ameaça que estaria sofrendo por parte da família de Domingos. Ele afirmou que por causa dessa suposta ameaça, teria pedido afastamento do trabalho.
 
A família de Domingos negou qualquer ameaça e afirmou que “só queremos justiça, isso é um direito nosso. Nunca ligamos para o motorista, mesmo tendo certeza de que meu irmão morreu inocente”, disse na época Aparecida, que assegurou: “vamos provar que ele foi executado sendo inocente”. A família apontou uma série de inconsistências na versão apresentada no boletim de ocorrência e nos depoimentos do motorista.    
 
Domingos é inocentado da acusação de assalto
Em 13 de dezembro de 2020, o motorista de ônibus Wilson Kepler mudou o depoimento e confessou que não houve assalto. Disse que os dois teriam discutido porque Domingos estava filmando o ônibus e que ele o teria ameaçado, por isso inventou a história que levou a morte de Domingos.
 
Conclusão do inquérito indicia motorista por denúncia caluniosa, mas isenta policiais
As investigações continuaram e somente após a confissão do motorista de que havia mentido sobre o suposto assalto é que o inquérito foi concuído. O resultado foi apresentado ao público no dia 13 de dezembro de 2021 e trouxe o indiciamento de Wilson Kepler por denunciação caluniosa.
 
Consta no inquérito que a perícia identificou sete marcas de tiros na calçada e seis perfurações de projéteis no corpo de Domingos. Policiais contestam o número de tiros.
 
Na entrevista coletiva, o delegado responsável pelo caso disse que foram pesquisados os antecedentes criminais de Domingos e nada foi encontrado. “O que apuramos é que Domingos era um homem trabalhador”.
 
Em relação aos policias, apesar do elevado número de tiros, do fato de nenhum ter sido disparado da arma de Domingos, os policiais envolvidos na ocorrência não foram indiciados. Conforme consta no inquérito, pelo estado do projétil que causou a morte de Domingos, não foi possível a balística determinar de qual arma ele saiu, sendo impossível definir a autoria.    
 
A família não concorda com o resultado do inquérito
 Inconformada, a família seguiu na busca por justiça e obteve, em dezembro de 2020, um vídeo gravado pelos próprios policiais logo após a ação que resultou na morte de Domingos. O vídeo mostra Domingos no chão, algemado, e um dos policiais narrando como a ação teria ocorrido.
 
A advogada da família apresentou o vídeo ao Ministério Público, que reabriu o inquérito e pediu uma reconstituição da cena, que foi realizada em maio deste ano. A reconstituição foi feita para tentar definir se houve excesso na abordagem policial que resultou na morte de Domingos.  
 
Em setembro, o inquérito foi reenviado ao MP, e a família agora vive a ansiedade de saber qual será a decisão do Ministério Público sobre os policiais. “O que a gente quer é justiça. Não teremos mais o Domingos de volta, mas esperamos que isso não aconteça com outras pessoas, porque eu não desejo que ninguém passe pelo que nós passamos”, disse Aparecida.