Uma reportagem publicada no ano passado, e replicada nos maiores portais de notícias do Brasil, traz esperanças para o vilhenense Laércio Torres, ex-secretário municipal de Obras e candidato a deputado estadual pelo avante.
Ele passou por um delicado procedimento cirúrgico e recebeu aplicação do medicamento experimental polilaminina. A ação tem como objetivo fazer com que Torres recupere o movimento das pernas, perdido após um acidente na BR 364 no último sábado, 12 (LEMBRE AQUI).
Um bancário paulista de 31 anos, identificado Bruno Drummond de Freitas, vítima de acidente de trânsito em 2018, assim como Laércio, chegou a ficar paralisado “sem movimento nos braços e nas pernas”, mexendo só a cabeça”. Após receber a polilaminina, Freitas leva uma vida praticamente normal.
Freitas tem sido o rosto do sucesso recente da polilaminina - além dele, alguns outros pacientes se submeteram voluntariamente ao procedimento. Há muitos casos de recuperação de acidentados que corriam o risco de ficarem paraplégicos, e que hoje andam normalmente graças à substância.
LEIA ABAIXO a história do acidentado ´paulista que deixou de se tornar cadeirante após o método experimental de tratamento.
Com a ajuda de um remédio experimental, o bancário paulista Bruno Drummond de Freitas, 31, recuperou boa parte dos movimentos dos braços e pernas, perdidos em um acidente em 28 de abril de 2018. Freitas diz lembrar pouco do incidente, ocorrido durante viagem em família entre São Paulo e Teresópolis, mas conta que dormia no banco de trás, sem cinto, quando o veículo bateu. Uma lesão cervical completa cortou a comunicação de seu cérebro com o resto do corpo. "Só lembro que dormi e acordei sem movimento, mexendo só a cabeça, sem sentir nada."
Duas semanas após o incidente, ele já era capaz de mover o dedão do pé, motivo de celebração da equipe médica. “Quando se move uma extremidade, significa que o sinal está percorrendo o corpo inteiro”, explica à GQ Brasil. Hoje, Freitas segue vida normal, ainda que sua mão esquerda não tenha recuperado a força costumeira e a perna esquerda ainda esteja, em suas palavras, “bugada”: “Ando, subo e desço escada, só tenho dificuldade para correr”, explica. “Acho que posso melhorar ainda mais, mas aí teria que abrir mão de muita coisa e não tenho tempo”, conclui.
Uma injeção do fármaco polilaminina, desenvolvido no decorrer de mais de 20 anos por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é apontada como protagonista da recuperação. A polilaminina é uma versão de laboratório de uma proteína chamada laminina, produzida naturalmente pelo organismo - principalmente no momento do processo embrionário em que o sistema nervoso se desenvolve. Aplicada na área afetada, em uma única dose, a esperança é que ela promova conexões nervosas perdidas após lesões na medula espinhal, rompimentos responsáveis pela paraplegia e tetraplegia.
A polilaminina é um remédio experimental, e o laboratório Cristália, responsável por sua fabricação, ainda está em tratativas com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a primeira de quatro fases de testes clínicos, passo em que se determina a segurança de um tratamento.
O fármaco, viabilizado por intermédio de um parente de Freitas meras 24 horas depois do acidente, foi injetado durante o procedimento cirúrgico para instalação de suportes de titânio na altura da base do pescoço, onde ocorreu uma compressão medular, e pouco abaixo das omoplatas, devido a uma fratura vertebral. “Meu tio é médico e uma pessoa da equipe de cirurgia tinha comentado sobre o estudo”, explica. "Ele foi atrás e aprovou. Meu pai e minha mãe não entendem de medicina, eu estava desacordado. Então ele que assumiu o risco ali pela gente, por mim.”
O procedimento se deu no Hospital Adão Pereira Nunes em Duque de Caxias, RJ. Freitas posteriormente foi transferido para o Copa Star no Rio de Janeiro e depois para uma unidade da AACD. Além da injeção e da cirurgia, o paulista se submeteu a cerca de um ano e meio de fisioterapia, duas vezes ao dia, todo dia - foi a única parte do processo custeada pelo paciente. Por dois anos desde a cirurgia, teve acompanhamento frequente da pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, principal nome por trás da polilaminina, e da equipe da UFRJ.
Havia o medo de fracassar? "Não passou pela minha cabeça, sempre fui muito positivo. Nunca me passou o temor de ficar para sempre assim. Coloquei na minha cabeça que ia dar certo."
Freitas evita diagnósticos conclusivos e prefere descrever o remédio como peça importante de um processo maior. “O que eu sei é que me comparei com outros pacientes que estavam com lesão igual a minha ou parecida. Evolui muito mais rápido que os outros. Acho que isso se deve muito à polilaminina. Claro que tem o meu esforço, tem todo o meu entorno - eu fiquei em hospitais muito bons, minha família sempre me ajudou, meus amigos estavam ao meu lado. Eu tinha uma cabeça muito boa. Só fiquei meio triste assim nas primeiras duas, três semanas. Depois me joguei, aceitei a realidade e fui para cima.”
Freitas, que tem uma vida fitness desde os 14 anos (por meio de musculação, kickboxing, trilhas e outros esportes), aponta seu condicionamento físico como outro ponto positivo, de acordo com o que ouviu da equipe médica. “Antes do acidente eu treinava muito e estava na época com o corpo muito bom. Me falaram que quando sofri o acidente, provavelmente os músculos protegeram um pouco meu osso e meu pescoço. E no pós, quando voltei a recuperar algum movimento, a memória muscular também ajuda bastante”, explica.
Freitas tem sido o rosto do sucesso recente da polilaminina - além dele, alguns outros pacientes se submeteram voluntariamente ao procedimento. "Estou recebendo muitas mensagens de pessoas pedindo ajuda, dividindo histórias, perguntando como faz para entrar com esse tratamento? Ficou mais palpável como lesões medulares realmente são algo que afeta uma grande parte da sociedade", conta o bancário. "Nunca interagi com tanta gente na minha vida, está sendo uma novidade para mim."
"Ainda não estou entendendo muito bem qual minha missão nisso; eu sou uma pessoa comum, né? Eu trabalho, sou CLT e tal", diz. "O que espero é ajudar as pessoas, dar esperança, tentar forçar a Anvisa liberar logo esses estudos clínicos, porque no final das contas tem muitas pessoas aí que precisam dessa substância."
Após ter passado ele mesmo pela experiência, o bancário argumenta em prol de uma decisão rápida da agência reguladora para viabilizar o remédio. "Acho que a Anvisa está dormindo no ponto, para mim ela já tinha que ter liberado a fase de estudo clínico", diz, citando os mais de 20 anos de estudo e o fato de que o tratamento ainda não apresentou efeitos colaterais comprovados em animais ou humanos. "É um assunto que interfere na vida de muitas pessoas."
Em comunicado, a Anvisa diz que aguarda no momento dados complementares da Cristália sobre estudos pré-clínicos. "Estes estudos são indispensáveis para a avaliar se o produto pode seguir para fase de teste em seres humanos. Os dados submetidos para a Anvisa, até o momento, referem-se aos estudos iniciais da fase pré-clínica (sem uso em seres humanos)", comenta a agência. "Não temos como antecipar prazos para autorizar a pesquisa com seres humanos antes da apresentação dos dados completos."