Casa não tinha rampa de acesso e porta do banheiro era estreita para a cadeira de rodas
 
Os jornalistas evitam ao máximo escrever reportagens na primeira pessoa. A razão é simples: o repórter não é a notícia e o jornalismo não é uma ferramenta para projeção de relatos pessoais.
 
No entanto, uma exceção para ser aberta: quando o tema em questão for de intenso interesse público e quando a pauta poderá beneficiar toda a sociedade – ou, pelo menos, uma parcela expressiva dela.
 
Por isso, este repórter do FOLHA DO SUL ON LINE pede licença para relatar um fato pessoal, mas que tem implicações sociais.
 
Estou construindo uma casa num terreno que adquiri no bairro José de Anchieta, em Cerejeiras.
 
A casa é pequena, de 68,9 metros quadrados, cujo projeto foi reaproveitado das residências de um projeto habitacional do governo federal.
 
Decidi não recorrer aos bancos e fui construindo a casa na “garra”, como se diz.
 
Quando já estava na fase do reboco, na semana passada, recebi a visita dos meus pais, de uma irmã, do marido dela e do meu sobrinho Gustavo.
 
O meu sobrinho é cadeirante. Ele nasceu no dia 30 de setembro de 2006 com uma deficiência na coluna vertebral chamada mielomeningocele. Também denominada “espinha bífida”, a doença é uma má formação em um dos gomos da coluna, cujo anel da vértebra fica gelatinoso, por assim dizer. A má formação não tem cura e, no caso do meu sobrinho, a pessoa não consegue andar.
 
Cadeirante desde que nasceu, Gustavo tem uma prática elogiável na “pilotagem” da cadeira de roda, vivendo com bastante independência. Exceto quando a casa não tem acessibilidade.
 
É o caso das portas dos banheiros, por exemplo, que geralmente têm apenas 70 centímetros de largura.
 
Na casa onde moro pessoalmente, a porta do banheiro tem exatamente esta dimensão. E o meu sobrinho precisava de ajuda para ir ao toalete.
 
Além disso, minha casa, que é de madeira e foi construída há 30 anos, onde moro, não tem rampa, o que o obrigava a pedir ajuda para subir na área da casa e entrar para o interior da residência.
 
Meu susto foi maior quando descobri que, no projeto da minha casa que estava em construção, a porta do banheiro também tinha exatos 70 centímetros. E não tinha rampa.
 
Acionei o engenheiro Maycon Rodrigues e o pedreiro Adeilson Cardoso e, ainda bem, foi possível para corrigir esta deficiência da obra a tempo e construir a casa com mais acessibilidade. Solicitei a porta do banheiro com 80 centímetros e uma rampa de acesso em uma das portas da residência.
 
No mundo de hoje, tudo pode ser encarado como um “mi-mi-mi”. No entanto, ao conversar com meu amigo Rafael Pitteri, que é advogado, percebi que o caso é mais sério que apenas uma reclamação. Segundo o meu amigo, ele ficou em casa uns dias parados, se recuperando de um acidente, e teve que usar uma cadeira de rodas provisória. “Foi muito ruim, pois eu não conseguia entrar no meu próprio banheiro”.
 
Segundo a lei, os estabelecimentos públicos e comerciais precisam ter acessibilidade, como rampa e uma porta de 90 centímetros. Na prática, porém, uma porta de 80 centímetros já passa um cadeirante de porte físico normal. Mas nas obras residenciais a lei ainda não diz nada – pelo menos o que pude apurar.
 
No entanto, esta reportagem faz um apelo para proprietários de obras, arquitetos, engenheiros e construtores para pensar nesta questão. Mesmo que não haja um cadeirante na família do proprietário, é mais sábio e prudente construir uma casa com acessibilidade. Como demostra o exemplo do meu amigo advogado, até mesmo quem não é portador de necessidades físicas, pode precisar de uma residência com mais acessibilidade, mesmo que provisoriamente.
 
*Rildo Costa é correspondente do FOLHA DO SUL ON LINE em Cerejeiras e região