*Por Júlio Olivar
REVERENDO RESPONDE SOBRE UNIVERSO EVANGÉLICO ATUAL
Sérgio Paulo Horta Pereira iniciou-se como pastor em 1993, aos 24 anos de idade, em Manaus (AM). Desde 2018, é reverendo da Igreja Presbiteriana do Brasil em Vilhena (RO), cidade de onde ele se considera natural.
Ele faz parte de um dos primeiros núcleos familiares — não índios — de Vilhena. No ano que vem, fará 60 anos que seus pais se estabeleceram em Vilhena. São eles a saudosa Noeme Barros Pereira (primeira professora e agente da VASP) e sargento Aymoré Horta Pereira, que fez história na FAB (Força Aérea Brasileira).
Hoje aos 52 anos, casado com Ana Luíza, dois filhos, Sérgio tem preparo de sobra para responder às questões muitas vezes consideradas espinhosas no meio evangélico. A exemplo do desrespeito de algumas igrejas à religiosidade dos indígenas, a união civil homoafetiva, o crescimento das igrejas neopentecostais, a não exigência de formação acadêmica para o exercício da atividade de pastor. Estas e outras questões eu abordei com ele nesta entrevista.
Graduado em teologia, pós-graduado em antropologia e especialista em terapia complementar pelo Belfast Metropolitan College, do Reino Unido, também estudou na Itália. “Um líder religioso sempre está em formação, para melhor servir a Deus, servindo ao seu povo. Já vi muitos absurdos nestes meus trinta anos de pastorado”, afirma o reverendo.
-O senhor nasceu em Vilhena em que ano? Como foi viver a infância aqui, uma comunidade tão isolada na época?
REVERENDO SÉRGIO— Na realidade, eu nasci em Porto Velho, para minha frustração. Sou o caçula de seis filhos, e minha mãe precisava fazer a laqueadura. Como em 1969 não havia recursos em Vilhena, meu pai a enviou para Porto Velho, onde nasci e imediatamente retornamos para casa. Me considero vilhenense, onde minhas melhores memórias afetivas estão fincadas profundamente. De minha perspectiva infantil, o vilarejo de Vilhena era o paraíso! Eu apreciava a liberdade de passear pelos campos ao redor da Vila Vilhena e da FAB, onde morávamos. O céu azul sempre me encantava, especialmente pelas manhãs. A maioria das noites era abençoada com a presença da neblina, nuvens que passavam por esta altitude de 625 metros acima do nível do mar. As visitas ao rio Piracolino eram sempre uma ocasião especial, me maravilhava a limpidez da água e a areia do leito, nunca me cansava de visitar este local. Em 2006, ao fazer uma visita a Vilhena com meus filhos, os fiz entrar no rio e fiz uma foto, no mesmo local onde eu e meus irmão fomos fotografados na nossa infância. Bem, nem preciso dizer que eles não acharam nenhuma graça, mas eu sim, e fiquei emocionado. Portanto, eu nasci em maio de 1969, e tive uma infância maravilhosa nesta comunidade de difícil acesso, com barro nos pés, poeira nos cabelos, pele sempre queimada pelo sol, sempre encantado pelo céu azul brilhante, banhado pelas águas poderosas do rio Piracolino. É assim que me sinto até os dias de hoje: um privilegiado.
-Sua mãe foi primeira professora de Vilhena. O senhor foi alfabetizado por ela?
REVERENDO SÉRGIO — Quando chegou a minha idade escolar, já tínhamos escola pública estabelecida. Não foi o caso dos meus irmãos mais velhos, todos foram enviados para Cuiabá (as meninas), Rio de Janeiro e Belo Horizonte (os meninos). Fomos ajudados por nossos tios nestas localidades. Minha mãe sempre dava muito valor à educação formal, pois entendia ser a única maneira de prosperar na vida. Ela me ensinou a falar corretamente o português, sempre me corrigia. Também era dedicada a me ensinar boas maneiras, como tratar os mais velhos, higiene pessoal, como usar os talheres. Ela conhecia geografia e história muito bem, e me passava este conhecimento com orgulho. Cresci ouvindo sobre as cidades de Rondônia, os rios, a Chapada dos Parecis, etc. Uma coisa marcante em nossa casa era a leitura, tínhamos muitos livros, revistas como Seleções e National Geographic, e a cara Enciclopédia Barsa, que foi comprada com muito esforço.
-Sua família já era presbiteriana? Se não, por que escolheu essa denominação?
REVERENDO SÉRGIO — Minha família não era de origem protestante. Meu avô era da Assembleia de Deus, mas minha mãe não era. Nos anos 70, com a chegada do Reverendo Luciano Breder e esposa Dorcas em Vilhena, ela se tornou presbiteriana, e eu cresci neste contexto. Ainda criança, com a simplicidade própria da idade, compreendi o Evangelho e desde então tenho minha vida pautada neste contexto.
- Quando o senhor era criança, a maioria esmagadora da população ainda era católica. Havia muitos embates e resistências e até perseguições aos evangélicos? Que histórias o senhor poderia nos contar neste sentido?
REVERENDO SÉRGIO — Não tenho nenhuma memória de dificuldades com o universo Católico Romano. Pelo contrário, fomos muito amigos do Padre Angelo e Padre Fausto. O Padre Fausto era mais severo, tentava controlar a criançada sapeca com cascudos. Já o Padre Angelo nos consolava. (Risos). Meu irmão Julio Cesar foi coroinha, tínhamos uma excelente relação social.
- Quais os grandes desafios para as igrejas protestantes do século XXI, em que prevalecem aspectos de relativismo sobre moral e ética?
REVERENDO SÉRGIO — É um desafio enorme! A teologia bíblico-cristã é a mesma desde que o Canon foi estabelecido no primeiro século. Já a prática dos cristãos nem sempre se fundamentaram neste padrão bíblico, sofrendo as influências políticas e sociais das diversas eras até o dia de hoje. Com certeza o legado da Reforma Protestante, o retorno às Escrituras Sagradas, que produziu a ética evangélica, está sendo rapidamente desfeito nas últimas décadas. Portanto, o desafio é preservar os valores de abnegação e renúncia ao individualismo ensinados por Jesus, em meio a uma sociedade materialista e indivíduos interessados apenas em si mesmos, sedentos por prazeres passageiros, completamente descomprometidos com o coletivo, com a família, com o outro.
- O pecado de ontem é o mesmo de hoje? Ou é o possível que os conceitos sejam revistos, posto que até o Papa andou pedindo perdão por equívocos como a Igreja Católica ter tolerado a escravidão?
REVERENDO SÉRGIO — A definição de pecado é “não conformidade com a natureza de Deus”. Todo pensamento, palavra, ação, omissão, que não estejam perfeitamente alinhados com a natureza divina, é pecado. No idioma hebraico a palavra para pecado também serve para dizer “errar o alvo”, como um arqueiro que mira no centro do disco, mas vê sua flecha um pouco fora. Ou seja, quando um indivíduo se expressa de forma não divina, ele pecou. Já os usos e costumes, que muitos chamam de pecados, tais como: vestimenta, hábitos alimentares, dias santos, estes mudam de acordo com o tempo, cultura local, valores sociais. Portanto, é pecado não amar a Deus acima de todas as coisas, assim como não amar o próximo como a si mesmo. (João 13:34). Nada mudou. Já costumes sociais mudam com o tempo, exigindo que a comunidade cristã se adeque à nova realidade. Este processo pode ser bem complicado, gerando desconforto nos mais conservadores. A comunidade cristã, também conhecida como instituição igreja denominacional, não é a voz e autoridade de Deus; as Escrituras Sagradas o são. Neste ponto, se sujeitar a ela é o fundamento do protestantismo. E o compromisso moral e ético com esta Palavra de Deus tem arrefecido e subjetivado.
- O crescimento dos neopentecostais pode ser traduzido realmente como um aumento da fé do povo brasileiro ou o fenômeno decorre de alguma influência engendrada por forças midiáticas e políticas?
REVERENDO SÉRGIO — A religiosidade faz parte da formação do povo brasileiro. Somos uma sociedade com origens variadas, e crenças ainda mais variadas. A sociologia brasileira está repleta de excelentes trabalhos detalhando esta realidade. Tendo dito isto, o movimento neopentecostal é uma expressão religiosa que soube aproveitar bem este aspecto cultural e emocional de muitos brasileiros. Mas não é, de forma alguma, uma fé bíblica. A manipulação desta necessidade das pessoas, com o objetivo de controlá-las e usá-las para propósitos outros, é um fato histórico de nossos dias.
— Como o senhor vê a presença cada dia mais visível de pastores e líderes evangélicos em palanques eleitorais? Aqui em Rondônia, por exemplo, quase todos os parlamentares têm um pé em alguma igreja, que representa a principal base política de alguns deles.
REVERENDO SÉRGIO — Jesus, após a ressurreição, disse a Pedro: pastoreia as minhas ovelhas. (João 21:15-17). Este mesmo Pedro, anos mais tarde, ao escrever sua primeira epístola aos cristãos de uma região onde hoje é a Turquia, instruiu os lideres da seguinte maneira: “pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho. Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imercescível coroa da glória.” (1Pedro 5:2-4). Minha posição quanto a ser um Ministro do Evangelho é instruir meus irmãos a serem discípulos de Jesus. A entenderem a mensagem do Reino de Deus e se sujeitarem à sua justiça. Estes valores devem ser aplicados a todos os contextos da vida do crente em Jesus, inclusive suas escolhas políticas. A igreja deve ser um ambiente onde os que pensam diferente possam comungar, se respeitarem e tolerarem. O líder cristão deve ser o guardião deste ambiente equilibrado, não devendo ser ele mesmo o promotor de política partidária, muito menos dominar as ovelhas de Cristo e as constranger a qualquer coisa senão o Evangelho. Os membros podem, e devem, se engajarem politicamente. Já o pastor deve ser cuidadoso, para não extrapolar os limites de sua vocação de servo, usando sua influência para criar partidos de seu interesse pessoal dentro da comunidade de Cristo.
- A bancada evangélica é majoritariamente bolsonarista, logo, bastante conservadora de direita e avessa a pautas como indigenismo, políticas de gênero, questões étnicas, movimentos sociais. Qual a sua análise desse quadro?
REVERENDO SÉRGIO — O Evangelho de Jesus, anunciado pelos apóstolos, é elementarmente fomentador da família, da ética sexual judaico-cristã, do respeito aos mais velhos. É natural que políticos com valores cristãos defendam estes valores familiares e morais, que é também o clamor de seus eleitores. Quanto a ser “bolsonarista” de maneira incondicional, talvez não seja o ideal. O respeito pela vida e escolhas do diferente devem ser preservadas em uma sociedade saudável. As Escrituras Sagradas exigem o cuidado com os vulneráveis: viúvas, órfãos, estrangeiros, encarcerados, famintos. Políticos cristãos devem se engajar com políticas públicas que atendam as necessidades da sociedade como um todo. Devem defender os direitos de todos, sem impor seus valores religiosos sobre outros que não os tem. Por outro lado, devem combater políticas públicas que oprimam os direitos e valores de seus eleitores.
-A Igreja Católica, embora em declínio número, é muito estruturada em sua hierarquia. Por que há tanto divisionismo entre os evangélicos, inclusive aqueles que atuam na mesma orientação teológica, com dezenas de nomenclaturas e lideranças que se divergem muito?
REVERENDO SÉRGIO — Normalmente há duas razões para tal fato: ignorância bíblica e egolatria. Ou os dois juntos. Um dos pilares da reforma protestante de Lutero é o sacerdócio de cada crente. Ou seja, qualquer indivíduo crente em Jesus tem acesso a Ele, sem precisar de mediador. Este conceito, que é bíblico, uma vez que o único mediador entre Deus e os homens é Jesus Cristo, e ninguém vai ao Pai se não por Ele (João 14:6 e 1Timóteo 2:5), libertou a muitos da obediência a uma instituição religiosa para a obediência às Escrituras Sagradas. O problema se dá quando estas pessoas não a estudam, criando teorias distorcidas. Junte a isto um caráter inadequado, e a receita para uma explosão de novos grupos está feita.
- A igreja Presbiteriana do Brasil-IPB é da linha calvinista. Os fiéis sabem a diferença entre uma orientação teológica e outra? O que distingue os presbiterianos dos luteranos ou dos batistas, por exemplo?
REVERENDO SÉRGIO — Sim, a Igreja Presbiteriana do Brasil é Calvinista, também conhecida como Reformada. Os membros da comunidade presbiteriana, em sua maioria, entendem sua história e são bem instruídos no conhecimento bíblico. As crianças são ensinadas desde o berçário a crerem em Deus, que Jesus é sua revelação e salvador, decoram os livros da Bíblia, memorizam os ensinos de Jesus, e aprendem a aplicar estes ensinos à vida familiar e demais relações sociais. Os Reformados não veem a igreja como uma instituição a ser venerada, mas sim como uma comunidade cujo cabeça é Cristo, e seus líderes tem autoridade enquanto ensinarem e admoestarem segundo as Escrituras. Os presbiterianos conhecem as diversas expressões cristãs e suas origens históricas, reconhecendo-os como seguidores de Jesus, servos de Deus, com uma historicidade diferente. Basicamente, os luteranos são oriundos da reforma de Lutero na Alemanha. O presbiterianos são oriundos do movimento reformado da Suíça e Escócia. Os batistas históricos têm influência reformada em sua história. Estas denominações não surgiram como resultado de divisões e desentendimentos, mas sim devido o local e influência histórica da região onde o protestantismo prosperou.
- Há um fogo cruzado entre as teologias. Na Igreja Católica de Rondônia vemos a força da teologia da libertação que acolhe movimentos sociais e apoia a esquerda em contraponto com outra ala também católica: a renovação carismática, que por sua vez se afina com as igrejas pentecostais evangélicas que pugnam pela teologia da prosperidade e apoiam políticos da direita. Os calvinistas tomam que partido?
REVERENDO SÉRGIO — Será muito raro encontrar uma igreja calvinista, ou reformada, defendendo política partidária. Isso se dá devido o entendimento que a igreja não é partidária, seus membros sim. A igreja ensina seus membros a seguirem a Cristo, a serem comprometidos com a moral e ética do Evangelho, e a praticarem isto em sua vida privada e comunitária. Os púlpitos das igrejas calvinistas falam de Cristo e promovem somente a Cristo revelado nas Escrituras. Os pastores calvinistas admoestam suas ovelhas a obedecerem a Cristo. O culto calvinista é considerado solene, e deve promover a glória do Cristo.
- O senhor é muito respeitado como missionário. A principal atribuição de uma igreja são, ou deveriam ser, as missões?
REVERENDO SÉRGIO — Bem, segundo o próprio Jesus, anunciar o Reino de Deus é a única missão da igreja. “Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mateus 28:18-20). A igreja anuncia a salvação em Jesus Cristo, ensina os convertidos a serem seus discípulos, oralmente e através do exemplo. Este processo se dá para com meu vizinho, minha cidade, ou em um país distante. Ou seja, onde houver um crente, deve naturalmente haver um anúncio da salvação em Jesus Cristo.
- O que o senhor pensa sobre a presença das igrejas nas aldeias indígenas, negando que a fé e as práticas religiosas milenares dos povos das florestas não conduzam a Deus?
REVERENDO SÉRGIO — Do ponto de vista de Jesus, apenas Ele é o caminho, a verdade e a vida, e ninguém pode ir a Deus se não pela fé nEle. Ele mesmo ordenou aos seus seguidores a fazerem discípulos de todas as nações. Os apóstolos andaram por muitas cidades com religiões das mais variadas. Eles ensinaram sobre Jesus e a salvação da alma daquele que cresse. Então eles ensinavam os novos crentes a serem discípulos de Cristo. Em muitas ocasiões eles foram hostilizados, perseguidos, agredidos fisicamente, mas seguiram em frente anunciando sua fé pacificamente por onde passavam. Eu reconheço que muitos missionários levam o Evangelho aos indígenas sem um treinamento antropológico adequado, causando muitos danos desnecessários. Por outro lado, nenhuma sociedade ficou intocada ao longo da história da humanidade, sempre sofremos e exercemos influências. Jesus ordenou que todos os seus discípulos se tornassem anunciadores do seu amor e salvação. Esta mensagem deve acalentar a alma dos seus ouvintes, nunca dominá-los ou explorá-los, como foi feito durante a colonização do território brasileiro e nos séculos seguintes.
- Está em vigor a união civil entre pessoas do mesmo sexo, gerando muitas controvérsias entre os evangélicos. Qual o seu olhar como cidadão secular e como reverendo presbiteriano para a questão?
REVERENDO SÉRGIO — O meu entendimento é que as pessoas têm o direito de fazer suas opções sexuais como melhor entenderem, e devem ser respeitadas e tratadas com dignidade. A vida privada e preferências pessoais precisam ser protegidas em um estado de direito. Se um homem, ou mulher, escolhe ter uma relação homoafetiva, é direito dele ou dela. Este indivíduo deve respeitar àqueles que não o querem, também é direito deles. A sociedade é um conjunto de pessoas com crenças e hábitos variados, e todos devem evitar impor os seus sobre os demais. Todos devem respeitar e honrar uns aos outros, mantendo aquilo que é privado para si mesmo. A violência física ou psicológica sobre o diferente é selvagem, não deve fazer parte das práticas de um cidadão inteligente e educado. A escola deve ser um ambiente para todos, assim como as praças, as ruas, ou qualquer local público. Deveríamos defender este patrimônio social de democracia e dignidade. O que vemos hoje é uma militância pela destruição deste ambiente seguro, tentando fazer uso de leis para imporem o que deveria ser íntimo e pessoal, sobre a vida dos demais.
- Algumas igrejas não exigem formação adequada de seus pastores. É possível conduzir uma igreja sem ser teólogo, considerando toda a complexidade da Bíblia e dos estudos complementares que precisam ser dominados? Como o senhor se formou?
REVERENDO SÉRGIO — Definitivamente não. A Escritura Sagrada menciona a importância do conhecimento tanto de Deus relacionalmente como de sua Lei. Os dois aspectos do conhecimento, pessoal e teórico, são interdependentes. Note o pedido de Salomão, registrado no livro de 2 Crônicas 1:10: “Dá-me, pois, agora, sabedoria e conhecimento, para que eu saiba conduzir-me à testa deste povo; pois quem poderia julgar a este grande povo?” No livro do profeta Isaías 1:3 e 4, Deus assim protesta: “O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende. Ai desta nação pecaminosa, povo carregado de iniquidade, raça de malignos, filhos corruptores.” No Novo Testamento, ao escrever ao jovem líder Timóteo, o apóstolo Paulo assim o instrui sobre liderança na igreja de Cristo: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.” (2 Timóteo 2:15). Portanto, é imprescindível a boa formação teológica. A Igreja Presbiteriana do Brasil, em sua Constituição, no Artigo 32, assim reza: “O ministro, cujo cargo e exercício são os primeiros na igreja, deve conhecer a Bíblia e sua teologia; ter cultura geral; ser apto para ensinar e são na fé; irrepreensível na vida; eficiente e zeloso no cumprimento dos seus deveres; ter vida piedosa e gozar de bom conceito, dentro e fora da igreja.” Quanto a minha formação, foram oito anos de estudos antes de minha ordenação ao Ministério Sagrado. Depois fiz mais um ano. Posteriormente me especializei em Antropologia pela universidade de Anápolis. Tenho outras formações alcançadas durante dez anos de trabalho no Reino Unido e Itália. Um líder religioso sempre está em formação, para melhor servir a Deus, servindo ao seu povo. Veja este caso verídico, que eu mesmo presenciei ainda em meus anos iniciais cursando Teologia. Um colega foi convidado a falar em uma pequena igreja, próxima ao nosso seminário. Ao retornar estava chocado. O pastor daquela comunidade, que era uma igreja pentecostal, e sem formação acadêmica, afirmou que Jesus se locomovia de motocicleta. Também afirmou, aos gritos, que o motor não é uma invenção moderna. O fundamento de tal afirmação foi justificado numa passagem bíblica que narra a partida de Jesus para uma determinada região, e diz que Ele foi “de moto próprio”. Pode parecer engraçado, mas na verdade é uma tragédia! Já vi muitos absurdos nestes meus trinta anos de pastorado! Muitos lideram outros sem mesmo ter domínio da língua portuguesa, sendo incapazes de fazer uma simples interpretação de texto. Lamentável e vergonhoso!
- Rondônia é um dos estados em que há mais evangélicos no Brasil, segundo o IBGE. Por quê?
REVERENDO SÉRGIO — Como retornei para Vilhena em 2018, após 40 anos de ausência, não tenho como fazer esta avaliação com propriedade. Mas posso dizer que a presença de igrejas evangélicas (entenda-se protestantes, pentecostais, neopentecostais, etc.) me impressiona. Tenho viajado pelo Estado nestes anos, atendendo a convites e atividades conciliares da IPB, e é notória a quantidade de templos por todos os lados. Suspeito que o movimento migratório tenha influência nestes números.
-Qual o contexto numérico em que se posiciona sua igreja nos rankings nacional e estadual? Quantos templos presbiterianos há aqui em Vilhena?
REVERENDO SÉRGIO — Em Vilhena temos três templos presbiterianos, um no centro, que é o mais antigo. Outro no bairro Bela Vista, e o terceiro no Setor 9. Somos comunidades pequenas, se comparados a outras denominações da cidade. Já no contexto nacional, segundo o censo do IBGE 2010, os presbiterianos estão em sexto lugar entre as igrejas evangélicas. Somos um pouco mais de um milhão de membros no Brasil. Em Rondônia segue esta mesma proporcionalidade.
- A igreja não é, necessariamente, uma entidade filantrópica. Mas a sua atua também socialmente?
REVERENDO SÉRGIO — Historicamente, as igrejas presbiterianas sempre levaram o cuidado social juntamente com a pregação do Evangelho. Os cristãos reformados sempre entenderam a importância da educação e misericórdia na sociedade em geral. Há hospitais de ponta nos Estados Unidos que foram fundados por presbiterianos ao imigrarem, provenientes dos países europeus. Há também universidades de grande importância, como Harvard, Yale, Princeton, Universidade Livre de Amsterdam, todas de origem presbiteriana e reformada. No Brasil temos o Mackenzie, com excelente currículo, e que oferece centenas de bolsas de estudo para famílias carentes. As igrejas presbiterianas, discretamente, mensalmente socorrem famílias com cestas básicas, dentro de suas capacidades. Recentemente, em julho deste ano, um grupo de presbiterianos foi para a Bolívia com médico e dentista, onde fizeram centenas de atendimentos, forneceram gratuitamente medicamentos receitados, e também construimos um casa para um morador local. Esta iniciativa é feita uma vez por ano. Há quatro anos a Igreja Presbiteriana de Vilhena iniciou o Centro Educacional de Vilhena-CEPVHA, oferecendo classes do primeiro ao quinto ano, com o mesmo consagrado sistema de ensino do Mackenzie de São Paulo. Educação de qualidade, com valores que defendemos. Nosso sonho é poder, no futuro, oferecer bolsas de estudos às famílias carentes, dando o melhor para que possam competir em igualdade com os mais abastados. O povo presbiteriano é generoso, e discreto.
-Suas considerações.
REVERENDO SÉRGIO — Já falei demais (risos).
*Júlio Olivar é escritor e jornalista
Fotos
Autor:
Júlio Olivar
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 02 de Dezembro de 2021, às 08:32