Repórteres da emissora vão trabalhar pelo sistema home office

 
João Andrade de Castilhos (1934/2014) foi juiz de paz, agente imobiliário e, principalmente, um ativista da cultura, pois esteve entre os fundadores do CTG “Sinuelo do Norte” (Centro de Tradições Gaúchas) e da TV Vilhena (afiliada da TV Globo).
 
No dia em que Vilhena foi instalada como cidade, em 23 de novembro de 1977, a TV também foi inaugurada pelo governador Humberto Guedes como parte das comemorações, graças aos esforços do gaúcho-vilhenense Castilhos. Há nisso algo inusitado: a televisão chegou antes do rádio e dos jornais impressos. Talvez Vilhena seja o único lugar onde essa inversão tenha ocorrido.
 
Castilhos devotou parte de sua vida a causas ao desenvolvimento local. Fundou a Guarda Mirim, levantou informações da história para um livro (nunca publicado por falta de recursos), era declamador de poemas nativistas, promoveu muitos eventos no CTG e conduziu centenas de cerimônias de casamentos. E a TV foi seu maior orgulho. Para levantar o prédio, à margem da avenida Marechal Rondon, ele precisou fazer permutas com olarias e cerâmicas de Pimenta Bueno, recebendo telhas e tijolos mediante  a divulgação de anúncios.
 
O retorno financeiro era pouco, pois na década de 1970 não havia empresa de grande porte no Cone Sul. Em entrevista ao jornal FOLHA DO SUL, em 2009, Castilhos afirmou que sua atuação foi “decorrente de idealismo” e que “nem pensava direito em lucro, senão não teria feito nada”.
 
No começo, a TV funcionava como uma espécie de rádio. Durante o intervalo comercial, ficava uma tarja, só com áudio, e o locutor falava ao vivo dando notas de falecimento, avisos de utilidade pública e pequenas notícias. O próprio Castilhos foi locutor. Assim como o professor Ângelo Angelin que, posteriormente, acabou governador de Rondônia.
 
Não havia equipamentos para gravar tapes. Não restou registros daquele período inicial histórico da cidade. Os vídeos que vinham de fora, via aérea, com a programação da TV Globo, faziam um passeio por todas as outras repetidoras no Estado antes de chegar em Vilhena. Com até duas semanas após passar na rede nacional, os vilhenenses podiam ter acesso aos seus programas favoritas. O Jornal Nacional era o que chegava mais rápido: dois dias de atraso. Como a energia elétrica era precária e vivia caindo, algumas vezes os telespectadores de determinadas áreas perdiam alguns capítulos de suas novelas preferidas, que precisavam ser reprisadas em outros horários para atender a todos. O final de “Dancin’ Days”, em janeiro de 1979, foi reprisado três dias seguidos, até que toda a população pudesse assistir à novela que foi um dos maiores sucessos da história da Globo.
 
Na década de 1990, a TV teve jornalismo próprio e com excelentes profissionais, a exemplo de Luiz de Carvalho. Até o final dos anos 2000, a emissora era analógica e as reportagens gravadas em fitas cassetes. O material bruto usado na rede estadual era enviado à capital em ônibus. O acervo da Rede Amazônica é rico, se ainda existir.
 
O tempo passou. Agora, nem de sede a TV precisa mais. O prédio está sendo demolido nesta semana e os repórteres que permanecerem na cidade vão precisar somente do equipamento — de ponta, perto do que um dia foi — e transmitir tudo à matriz, em Porto Velho, em regime de home office. Uma antena da TV também será mantida em Vilhena. É o que basta para tudo funcionar hoje em dia.
 
Em 2013, um ano antes de falecer em Porto Alegre (RS), aos 80 anos, Castilhos esteve em Vilhena contando suas histórias em uma palestra para estudantes de jornalismo da UNIR. Arrancou aplausos pela verdadeira saga que consistiu fundar uma TV  junto com uma cidade cujo único meio de comunicação era, até então, um “pau de fuxico” (serviço de alto-falantes posicionado em postes) que exalava músicas tocadas em LPs de dentro da Farmácia do Peruano.