Falas do pioneiro bolsonarista foram publicadas nas redes sociais
*Por Júlio Olivar
Catarinense, Jaime Maximino Bagattoli nasceu em 1961 e chegou criança em Rondônia. Tinha apenas 13 anos quando começou a trabalhar na serraria da família, em Vilhena, sul do Estado.
Veio pobre, tornou-se milionário lidando no setor madeireiro que vivia seu ápice na década de 1970; migrou para os postos de gasolina e, principalmente, tornou-se o maior produtor individual de soja em todo o Norte do Brasil e figura entre os maiores exportadores de grãos do país.
Milionário, dono de terras a perder de vista, aviões, milhares de cabeças de bovinos, implementos importados de alta tecnologia… Além da soja, o presidente do grupo Bagattoli também atua no confinamento bovino e pecuária extensiva.
Mesmo com toda a abastança, ele mantém-se simples no jeito de falar; é um homem do interior com sotaque catarinense, apesar das décadas em que está enfronhado na Amazônia.
Defensor veemente e radical do agronegócio, que lhe conferiu prestígio, Jaime Bagattoli tornou-se político de extrema direita, aliado do presidente Jair Bolsonaro, isso depois de militar em partidos como PSB e MDB. Hoje, não pode nem ouvir falar nestes partidos “comunistas” [como são rotuladas as siglas pelos seus desafetos].
Confira a entrevista feita em 2009.
- Alguns segmentos acusam o agronegócio de ser uma atividade predatória na Amazônia e não ter muita ética, inclusive, acerca da questão alimentar, com o uso desmedido de agrotóxicos. Como o senhor se defende disso?
JAIME — Quando viemos para a Amazônia foi com o incentivo do próprio governo federal, que na década de 1970 tinha o bordão “Integrar para não entregar”. Aceitamos o desafio de nos instalar numa terra inóspita, sem confortos, nem rodovia existia e nem cidades. Eram vilas desestruturadas. Vilhena tinha no máximo 1400 habitantes e pertencia a Porto Velho, a 700 km. No começo lidamos com serraria, que era a principal atividade econômica daqui. Depois que começamos a mexer com posto de gasolina e no agronegócio. Os produtores conseguiam fazer milagre produzindo, fazendo correção de solo, investindo em tecnologia. Eles eram heróis, inclusive reconhecidos pelo governo, condecorados e aplaudidos pelo pioneirismo. Havia concurso dos maiores produtores. Fomos atraídos para esse segmento e começamos a atuar na agricultura e na pecuária, porque era e é a nossa vocação. Tudo foi construído com muito trabalho. Aí, houve um tempo que começou a haver uma inversão de valores, criminalizando quem produz e mantém esse país de pé. O que seria do Brasil sem a agricultura? Onde a agricultura é colocada em segundo plano há pobreza, desemprego, os problemas sociais são mais agravados.
- O mundo mudou. Hoje fala-se em aquecimento global, em meio ambiente, temas que inexistiam na década de 1970. Como o senhor vê o cenário atual?
JAIME — Sim, muita coisa mudou, e nós também mudamos. Seguimos a legislação, que aliás é bastante rigorosa hoje em dia. A floresta está preservada aqui mais do que em qualquer outra parte do mundo. É nosso interesse preservar os rios e as reservas legais. Mas os estrangeiros, as ONGs, querem mais de nós. Afinal, eles — muitos deles — não produzem nada e estão de olho em outras questões. Querem nos enfraquecer para tomar conta da Amazônia. A Amazônia é rica em minérios, por exemplo. Aqui pertinho de nós há uma grande província de diamantes na terra indígena dos Cinta-larga; há ouro nos rios Madeira e outros rios. Também existe a questão da biopirataria feita pela indústria farmacêutica. Tudo isso deveria estar sendo usado e explorado pelos brasileiros, tem que ser normatizado. Mas, para nós, o mais importante é o agronegócio, é produzir alimentos.
Você acha que eles estão preocupados com índios, com meio ambiente, com aquecimento global? O que muita gente deseja é impor suas regras sem um respaldo científico e sem levar em conta o que já foi feito até aqui pelo agronegócio, inclusive salvando o Brasil da falência em vários momentos de crises. É possível conciliar produção e meio ambiente, e sem intervenções externas. Nós já fazemos isso.
- O que o senhor pensa sobre o latifúndio?
JAIME — Não há nenhuma norma que lhe impeça de ter muita terra. Desde que seja lícito. Vivemos numa pátria livre e onde prevalece o direito à propriedade. Os grandes proprietários do Centro-Oeste e do Norte sustentam a maior parte das exportações do Brasil, garantem a estabilidade da balança comercial e movimentam uma cadeia produtiva internamente. Os impostos que geramos ajudam a sustentar a máquina do Estado, os investimentos em educação, saúde, social, infraestrutura. No mais, veja que a maioria das propriedades rondonienses é de médias para baixo, de acordo com o que se quer produzir e com as possibilidades de cada um. Há espaços para todos que queiram trabalhar. Não precisamos dividir o Brasil entre latifúndio e minifúndio, agronegócio e agricultura familiar. Todos são agricultores. Eu sou agricultor e empresário. Outros que têm mais ou têm menos do que eu também são agricultores, e todos merecem respeito.
- Qual sua opinião sobre as questões sociais e, especificamente, o que o senhor pensa acerca do movimento dos sem-terra?
JAIME — É justo querer terra. Justo cobrar do governo. Cobrar seja o que for, desde que seja justo e legal. Desde que se comprove ser apto para o trabalho no campo e não fazer disso um movimento de guerrilha, partir para a ilegalidade e querer impor a vontade em cima da lei. Não é justo e nem legal invadir terras alheias, promover destruição e insegurança no campo. Nada justifica isso. A discussão tem que ser civilizada e política. Não precisa haver pressões e arruaças que intimidam e tratam o agricultor como bandido e os invasores como heróis. No geral, esses movimentos são massas de manobras dos partidos e de outros interesses. Não querem terra. Querem outras coisas.
- O senhor é filiado ao PSB [em 2008], um partido com histórico socialista, e conversa com o PT para viabilizar sua candidatura a prefeito de Vilhena, tendo participado de inúmeras reuniões com lideranças de esquerda e até ajudado financeiramente algumas candidaturas. Não é contrassenso?
JAIME — A realidade é que sem a esquerda, aqui no município, não dá pra vencer eleição. Tem que juntar todos para enfrentar um grupo que está enraizado, comandado por uma família só, que você sabe bem qual é [ele refere-se ao clã Donadon, mas não cita nomes]. Se não juntar todo mundo, os votos se diluem e eles ficam aí. Representam a irresponsabilidade, o inchaço da cidade trazendo gente de todo lado sem ver se tem emprego e estrutura para todos. Isso é ruim. Sem falar na corrupção que todos sabem que existe com esses políticos profissionais. Nem todos da esquerda são ruins. Veja aí o [deputado federal] Aldo Rebelo [ex-presidente da Câmara dos Deputados e filiado ao PCdoB], ele é o ponto de equilíbrio do Código Florestal, do qual ele é relator e sempre se pronuncia corretamente e com prudência sobre a agronegócio. Ninguém em sã consciência é contra o agronegócio. Mas conversar não quer dizer nada. Estar filiado também não tem importância, não muda os meus pontos de vista.
NOTA
Muita coisa mudou desde essa entrevista de 2009. Jaime acabou não sendo candidato a prefeito em 2012. Ele só entrou no páreo pra valer em 2018, candidatando-se a senador pelo PSL, partido de extrema direita, do então candidato a presidente Jair Bolsonaro. Jaime tornou-se um nome conhecido no Estado e terminou nas eleições em terceiro lugar, uma extraordinária votação para um estreante nas urnas. Assumiu um discurso criticando ferozmente a esquerda e o lulismo e fazendo do agronegócio a sua maior bandeira no cenário político conservador.
*Júlio Olivar é escritor e jornalista
Fotos
Autor:
Júlio Olivar
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 01 de Dezembro de 2021, às 14:19