Devemos lembrar que uma vida não tem preço e estes profissionais não têm o direito de errar
Um grupo de servidores da saúde municipal vilhenense, formado por enfermeiros, fonoaudiólogos, psicólogos, assistentes sociais, farmacêuticos, bioquímicos, cirurgiões dentistas, fisioterapeutas, biomédicos e nutricionistas, publicou uma carta de repúdio ao Poder Executivo que não incluiu os servidores da Classe D, no aumento concedido aos demais profissionais da saúde.
A reportagem da FOLHA DO SUL ONLINE conversou com um dos servidores que assinaram a carta de repúdio. O enfermeiro deixou claro que o grupo não se opõe ao aumento dado aos médicos, e sim, quer que os demais servidores também sejam contemplados com igual porcentagem de reajuste. “Não temos nada contra o reajuste dos médicos, o nosso repúdio é porque ele privilegiou uma categoria e deixou outras de fora. A gente está com uma defasagem gigante, de 144%. Então, o objetivo dessa carta de repúdio é mostrar o quanto o profissional de saúde é desvalorizado, e que o PCCS não teve validade nenhuma para a gente, não teve aumento de nenhum Real”, disso o enfermeiro.
Na carta de repúdio, os servidores fazem, além do apontamento da defasagem nos vencimentos da classe, uma comparação com os salários de servidores de outros municípios, e listam que em Ariquemes o salário base é superior a R$ 4.400,00; em Ji-Paraná passa de R$ 3.300,00; em São Miguel do Guaporé é de R$ 4.137,44; em Urupá R$ 4.773,71; e em Buritis R$ 4. 473,54; enquanto que em Vilhena esses profissionais recebem pouco mais e dois salários mínimos.
“E não é só isso que está defasado, o Vale Alimentação dos outros municípios é maior que o nosso. Chupinguaia paga R$ 750,00; Cerejeiras R$ 700,00; Corumbiara R$ 500,00; Colorado na mesma faixa; e aqui em Vilhena é de R$ 257,00”, apontou o servidor.
O grupo afirma que as negociações já vêm se arrastando há anos e que nos próximos dias, caso não haja uma decisão positiva do Executivo, os profissionais da classe D devem se reunir para avaliar a possibilidade de uma paralisação. “Já chegou no limite, a classe não tem mais paciência para promessas. Estamos unidos e se não tiver uma solução, nós vamos parar”, assegurou.
Veja abaixo a íntegra da Carta de Repúdio divulgada pelo grupo de servidores.
CARTA DE REPÚDIO
É sabido que assim como a classe médica os profissionais enfermeiros, fonoaudiólogos, psicólogos, assistentes sociais, farmacêuticos, bioquímicos, cirurgião dentistas, fisioterapeutas, biomédicos e nutricionistas formaram linha de frente no enfrentamento da pandemia de COVID-19.
Aos profissionais da saúde não havia a opção de home office ou de realização de atendimentos a distância, nós, tivemos que estar frente a frente com a morte todos os dias. Frente a frente com o medo e insegurança de levar contaminação para nossos lares e familiares.
Quantos de nós fomos contagiados múltiplas vezes pelo COVID? Quantos de nós convivemos com a solidão de precisar ficar distante de nossos amigos e familiares por estarmos diretamente no fronte? Quantas vezes nossos limites humanos, nossas vidas, nossa saúde mental e física, foram colocadas em risco ao enfrentarmos cargas horárias de trabalho extenuantes. Férias sendo canceladas, horas extras sendo imploradas pelos gestores para que o serviço não parasse e a população de Vilhena pudesse ser bem atendida. Nunca se apagará da nossa memória o dia em que ultrapassamos todos os limites de mortes naquela Central COVID, simplesmente não tínhamos mais onde acomodar tantos corpos.
Hoje, quantos servidores da saúde estão adoecidos e afastados por questões de saúde física e mental? Gastando seus 2, 2 salários mínimos para sustentar suas famílias e realizar seu tratamento. Como um servidor desses consegue sustentar sua família? Muitos estão trabalhando doentes, pois sabem que se pararem, não terão condições mínimas para sustentar suas casas com dignidade, quem dirá para se tratar.
Esses profissionais foram os únicos que não foram contemplados com os reajustes concedidos pela prefeitura de Vilhena. Os reajustes para outros profissionais da saúde variaram de 25 a 50%. Mas os profissionais então classificados na classe "D" não receberam qualquer reajuste. Foi prometido pela administração um reajuste para setembro, mas não havia intensão de se cumprir essa promessa. A administração cometeu uma enorme injustiça e descaso com esses profissionais que tiveram seus serviços esquecidos e desprezados.
Infelizmente, direitos conquistados como gratificação de pós-graduação, insalubridade e licença prêmio não estão sendo efetivados. Quantos de nós precisamos judicializar individualmente ou pelo sindicato para receber aquilo que nos é de direito. Investimos em formação para estarmos capacitados para atender nossos usuários e após a conclusão, entramos com o processo de gratificação que perdura por 3.. 4.. 5 anos para serem pagos. Profissionais que trabalham por dois, mas recebem 1 férias, 1 aposentadoria e quando doentes, corta-se todas as suas gratificações.
Os profissionais de nível superior ganhavam 5 salários em 1996 e hoje ganham apenas 2, 2 salários. Em comparação como salário mínimo de 1996 a perda salarial é de 144,44% e em comparação ao salário mínimo de 2016 a perda salarial é de 38%. Atualmente as profissões citadas recebem apenas um pouco mais que dois salários mínimos. Em outros municípios como Ariquemes (salário base gira em torno de 4.452,00), Ji-Paraná (3.341,59), São Miguel do Guaporé (4. 137, 44), Urupá (4.773,71), Buritis (4. 473,54). O próprio Imposto Municipal Sobre Serviço de Vilhena (ISS) nos cobra 5% sobre um salário hipotético de mais de 4500,00, valor este, que nem o próprio município paga a um servidor da mesma categoria.
Todos profissionais na área da saúde investiram financeiramente e se dedicaram durante quatro a cinco anos em regime integral ou noturno, para ter uma formação acadêmica. Pagam anuidades para seus conselhos de classe, Investem em formação e pós graduações, para prestar cuidado às mais diversas enfermidades. É árdua a jornada de cada profissional para proporcionar melhor qualidade de vida ao paciente e sua família, principalmente em época de pandemia.
Entendemos que somente com o trabalho da equipe multiprofissional. Médicos, enfermeiros, fonoaudiólogos, psicólogos, assistentes sociais, farmacêuticos, bioquímicos, cirurgião dentistas, fisioterapeutas, biomédicos e nutricionistas, foi possível diminuir as perdas ocasionadas pela pandemia e garantir a continuidade da assistência em todas as unidades de saúde do nosso município.
E que todas as profissões devem receber a mesma valorização por parte da administração pública. Não é justo realizar reajustes diferenciados tendo em vista que todas as profissões sofreram a mesma perda salarial ao decorrer dos anos.
A valorização da carreira é importante para que os profissionais não adentrem em grandes jornadas de trabalho e dessa forma prejudiquem a qualidade da assistência ao paciente. Salários defasados levam os profissionais mais antigos a abandonarem o vínculo público. Por outro lado, salários dignos irão manter os profissionais na carreira pública e assim aumentar a qualidade da assistência prestada a população.
Devemos lembrar que uma vida não tem preço e estes profissionais não têm o direito de errar.
A concessão do reajuste na porcentagem de 50% para os profissionais acima citados confere o reconhecimento da igualdade na tarefa de manutenção da saúde da população assistida pelo Sistema Único de Saúde.
Autor:
Rogério Perucci
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 11 de Julho de 2022, às 09:44