“Nós fomos a primeira família de fora a residir em Vilhena”, garante Maria José Rabelo Almeida
Entre as fotos que ilustram esta reportagem há um espaço temporal de mais de cinco décadas. A registro fotográfico da esquerda foi feito na década de 1960, e mostra dona Maria José Rabelo Almeida ao lado das filhas Giovana Rabelo Almeida dos Santos e Jane Rabelo Almeida Vargas no que hoje é o bairro 5º BEC. Na imagem à direita estão dona Maria José e a filha Jane, que foi feita na tarde da terça-feira, 06, na redação do FOLHA DO SUL ON LINE. Dona Maria José e o esposo Hesly Almeida e Silva foram os moradores da primeira casa que abrigou uma família que veio de fora para Vilhena. Nela eles moraram por cinco anos, até 1968.
Conforme Dona Maria José, hoje com 82 anos, ela desembarcou por aqui em 1963, com apenas três dias de casada. Seu esposo era topógrafo a serviço do DNER, cedido ao 5º Batalhão de Engenharia e Construção para atuar na abertura da BR-364.
Aqui ela viveu os seus primeiros anos conjugais e a gestação das duas primeiras filhas, Giovana e Jane. Sua partida de Vilhena, motivada por um evento traumático, não tirou dela o sentimento pela cidade, cujo crescimento ela assegura ter acompanhado de longe, mantendo vivo o desejo de retornar ao local aonde sua vida familiar começou.
Esse retorno aconteceu esta semana. Cinquenta e cinco anos depois, dona Maria José, acompanhada da filha Jane, desembarcaram em Vilhena. Mãe e filha já fizeram um tour pela cidade e puderam perceber o quanto a a pequena vila que elas deixaram cresceu nesse tempo.
Um ponto específico despertou lembranças daquela época em dona Maria José. Uma construção daquele período que fica na rua Washington Luiz, no bairro 5º BEC. A estrutura de madeira era um alojamento de operários que construíam a rodovia que ligaria Brasília ao Acre.
Dona Maria José conta que que quando chegou em Vilhena haiva duas construções, o alojamento que acomodava os trabalhadores que não tinham trazido famílias, e a casa dos engenheiros do DNER. E foi na casa dos engenheiros que dona Maria José morou por um breve período até que a casa copnstruida para eles fosse concluída. “Nós fomos a primeira família de fora a residir em Vilhena. Até aquele momento apenas existiam o alojamento para os trabalhadores e a casa dos engenheiros. A minha casa foi a primeira construída para uma família de fora em Vilhena”, Assegura.
Dona Maria José conta que seu esposo era responsável pelo trecho entre Vilhena e Pimenta Bueno, e por vezes precisava ficar dias fora. “Eu o acompanhava. Pegava as minhas filhas e ia junto com ele”, lembra.
Conforme relatou dona Maria José, a única forma de chegar e sair de Vilhena naquela época era no avião da FAB, que trazia mantimentos e que levava as pessoas que precisassem de atendimento médico ou que estivessem indo embora. “Os mantimentos que vinham em geral eram comidas enlatadas”, lembra a pioneira, revelando que por vezes trocavam com seringueiros a comida enlatada por carne de animais silvestres que eles abatiam.
As filhas Giovanna e Jane nasceram nesse período. Dona Maria José viveu as duas gestações em Vilhena e quando o parto se aproximava, ela ia para Paracatu (MG) e somente retornava um mês após o nascimento das filhas.
Com o passar dos anos outras famílias foram chegando e a comunidade crescendo. Naquela época o abastecimento de água da cidade era assegurado pelas águas límpidas do igarapé Pires de Sá, que também fazia a alegria das crianças nos banhos das tardes quentes amazônicas.
Dona Maria José relatou que um incidente com um colega de trabalho do esposo foi o motivo para ela retornar a cidade de Paracatu no ano de 1968.
Entre os diversos perigos que se apresentavam as pessoas que desbravavam essa região, um deles era o encontro com tribos indígenas que viam seu território ser invadido. Esse risco era tão real, contou dona Maria José, que havia um toque de recolher.
Conforme Dona Maria José, a família de Marciano Zonoecê lavava as roupas de alguns trabalhadores. Um desses operários era o colega de seu esposo. “Um dia ele resolveu levar roupa para lavar já no início da noite. Ele foi flechado e faleceu”, lembra Dona Maria José.
Esse episódio motivou Dona Maria José a voltar para a sua terra natal. “Eu conversei com meu esposo e voltei para Paracatu junto com as minhas filhas. Ele ainda ficou algum tempo antes de retornar”, contou Dona Maria José, que teve mais dois filhos: Wellington e Hesly Daniel.
Mesmo à distância, Dona Maria José não esqueceu de Vilhena e se recorda daquela época, mesmo com todas as dificuldades que viveu, como um dos períodos mais felizes da sua vida. E mesmo de longe acompanhou a evolução da cidade, da qual fez parte em seus primórdios.
“Sempre tive vontade de voltar para cá. E desde que a internet se popularizou tenho acompanhado a evolução de Vilhena; inclusive pela página do Facebook chamada Memória Vilhenense; já tendo, inclusive, enviado algumas fotos daquele período”, disse.
Fotos
Autor:
Rogério Perucci
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 09 de Junho de 2023, às 10:36