Motorista de ônibus que havia denunciado assalto volta atrás
Três anos após a morte de Domingos de Souza Francisco (completados ontem), um trágico incidente ocorrido em 1º de novembro de 2020, a família do agricultor continua a lutar por justiça, enquanto questionamentos e reviravoltas marcaram esse caso complexo. Domingos perdeu a vida em circunstâncias que agora se mostram obscuras e repletas de controvérsias.
Naquela fatídica madrugada, Domingos estava retornando da casa de sua namorada e parou em um tumulto na BR-364, próximo ao antigo Posto Cinta Larga. Inicialmente, a alegação era de que um ônibus havia atropelado uma garota, mas posteriormente foi constatado que essa informação era inverídica. Nesse contexto, Domingos e o motorista do ônibus teriam entrado em um desentendimento, resultando na saída precipitada do condutor em perseguição ao agricultor. Ao avistar uma viatura policial nas proximidades, o motorista acusou Domingos de assalto e afirmou que ele estava armado.
Domingos estava, de fato, armado, segundo informações da família, que alegou que ele havia adquirido a arma como forma de autodefesa devido a ameaças recebidas em um desacordo comercial. A versão policial, registrada no Boletim de Ocorrência indicava que Domingos teria apontado a arma em direção aos policiais e tentado dispará-la, sem sucesso. Em resposta, os policiais abriram fogo, atingindo-o com sete tiros. O boletim de ocorrência também alegava que, mesmo ferido, Domingos teria sacado um canivete e investido contra um dos policiais.
Entretanto, a família contestou veementemente a versão registrada no BO, alegando que Domingos não estava envolvido em um assalto. Em dezembro de 2020, o motorista de ônibus que inicialmente havia acusado Domingos de assalto confessou que tal relato era falso. Segundo seu novo depoimento, a discussão entre eles teria surgido devido ao fato de Domingos estar filmando o ônibus e, supostamente, ameaçando o motorista, o que o levou a inventar a história que resultou na morte do agricultor.
Apesar das reviravoltas e das contradições no caso, os policiais envolvidos na ocorrência não foram indiciados, mesmo diante do alto número de tiros disparados e da constatação de que nenhuma bala saiu da arma de Domingos. O inquérito alegou que a balística não foi capaz de determinar de qual arma partiu o projétil que causou a morte de Domingos, tornando impossível estabelecer a autoria do disparo.
Diante desse resultado, a família de Domingos, que nunca teve envolvimento em atividades criminais, recorreu da decisão. Há dois meses, segundo a irmã de Domingos, a Corregedoria da Polícia Militar em Porto Velho concluiu que os policiais agiram em legítima defesa. A irmã de Domingos expressou sua dor e revolta com a injustiça sofrida por seu irmão, enfatizando a determinação da família em buscar justiça até as últimas instâncias legais. Este caso lamentável destaca as complexidades do sistema de justiça e as questões relacionadas à atuação policial no Brasil, gerando discussões sobre a necessidade de reformas e a busca incansável por transparência e responsabilidade.
Autor:
Rogério Perucci
Fonte:
Folha do Sul
Publicado em 02 de Novembro de 2023, às 08:50